Não é só mais um lixo comercial, tão ácida quanto doce, Limonada de Beyoncé mostra a que veio

 

Por: Leo Barbosa

 

A cantora estadunidense Beyoncé acaba de lançar seu novo álbum, o Lemonade. O CD é o sexto de sua carreira solo e marca uma fase de extremo empoderamento à cerca de sua etnia e seu gênero. O disco é uma ode ao feminismo negro, onde a cantora invoca toda a sua ancestralidade. O título do trabalho é uma referência clara à época em que negros tomavam limonada acreditando que iriam embranquecer. Lemonade, além do videoclipe do primeiro single Formation, conta com um documentário homônimo de quase uma hora de duração, o vídeo  estreou uma noite antes do lançamento do CD no canal HBO e traz uma Beyoncé como nunca vista.

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Muitos fãs podem ter se decepcionado em relação a musicalidade do disco, basta ver os comentários nas redes sociais como facebook e twitter, ou então nos sites especializados em músicas. De fato, parece que Beyoncé saiu da zona de conforto; ao invés de lançar mais um “hitizinho grudento”, preferiu algo mais forte e que confrontasse o machismo, o racismo e a violência policial contra negros, assuntos presentes na sociedade dos Estados Unidos. E também por que não dizer na nossa?

 

Obviamente a melodia de uma música às vezes é muito mais atraente do que a própria letra. Não é o caso de Lemonade, as mensagens em cada faixa são tão relevantes quanto as estruturas melódicas do CD. Ainda que as batidas de cada música fujam das que eram habituais à cantora, isso só prova a sua versatilidade. A diversidade de estilos musicais presentes passam pelo pop, country, rock, blues e é claro, o ritmo que a consagrou, o R&B. Isso nos leva a alguns questionamentos: É mais importante a forma ou o conteúdo? Acaso não é o papel do artista questionar, confrontar e revolucionar a mentalidade de seu público ou o contexto no qual o mesmo está situado?

 

Beyoncé não é primeira artista pop a tocar em questões polêmicas  ou a trazer mensagens sociais em suas músicas. Madonna desde o início da carreira falava de feminismo, sexo, homossexualidade, justiça sócio-racial e tabus religiosos. No mesmo sentido, Lady Gaga também traz contribuições importantes para discussões desses temas. Mas qual é a diferença? Beyoncé é uma mulher negra! Michael Jackson também nasceu negro e em algum momento tocou em questões sensíveis a sociedade estadunidense, não é mesmo? Mas com uma grande diferença, Michael era homem.

 

Em certo momento do documentário, que serve de suporte publicitário para o disco, ouvimos  a fala de Malcon X ( assassinado em 1965 aos 39 anos): “A mulher mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”  O teor da fala de Malcon é reforçado na produção com imagens de mães de jovens negros assassinados pela polícia, incluindo as mães de Eric Garner e Michael Brown, essas mulheres aparecem no vídeo segurando fotos de seus filhos e dão o clima que a produção merece.

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Mas por que um trabalho deses causa tanto reboliço? Parece que a indústria cultural, a mídia e o mundo lidam melhor com os “artistas altruístas” que lançam um olhar para além de sua realidade; do que com os que falam do seu próprio lugar de vivência. Isto não invalida a luta dos outros, muito pelo contrário, só diferencia o papel de quem luta, isto é, o seu protagonismo e experiência em relação ao assunto. Arte tem que fazer pensar. Música pop tem que divertir, distrair e entreter. Mas uma coisa não exclui a outra, o pop não precisa ser burro ou fútil o tempo todo para cumprir sua função; e nesse sentido a produção de outros artistas pop é bastante vasta., conforme já mencionado.

 

Quando Beyoncé lançou o clipe de Formation e se apresentou no Superball, algumas pessoas acusaram-na de racismo inverso. Por mais que possa existir esse tipo de discriminação, não é sabido que pessoas brancas deixam de ser contratadas nas empresas pela cor de sua pele, ou que elas são frequentemente marginalizadas e hostilizadas por isso. Tá certo que Beyoncé em seus trabalhos audiovisuais- desde a época do Destiny’s Child– sempre contou com a maior parte de equipe composta por negros, além de seguir estilos musicais em que este grupo se faz mais presentes, mas isso tem mais a ver com identificação e autoafirmação, do que com o argumento levantado.

 

Há quem fale de oportunismo midiático, quando questões do tipo estão tendo maior visibilidade.  Não é a primeira vez que cantora fala de feminismo, no disco B’day de 2006 ela já fazia claras referência as sufragistas dos anos 60, no disco Four há uma canção em que ela pergunta: Quem manda no mundo?- e responde: Garotas, além de toda a sua postura nos palcos. Portanto não se trata de oportunismo, mas sim de um momento apropriado para se colocar frente à uma discussão. E que bom que temos artistas preocupados em lançar coisas desse nível.

 

São 12 faixas extremamente bem encaixadas na proposta do trabalho, com melodias potentes e letras fortemente engajadas. Além de Formation, outra música que merece destaque é, sem dúvidas,  o blues Freedom em que Beyonce aclama os negros a abrirem suas mentes, enquanto se libertam da opressão; a faixa ainda traz a participação do ativista Kandrick Lamar. Numa pegada mais country Daddy Lessons fala da rígida criação que Beyoncé recebeu de seu pai e é outro ponto forte de Lemonade.

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Conflitos e traições são temáticas abordadas no disco. Pelo menos é o que sugerem as músicas Sorry,  e Love Drought que, mais do que isso, falam de um relacionamento abusivo e a objetificação da artista, isto é, o produto altamente lucrativo do maridão e empresário Jay Z. Já em Don’t Hurt Yourself, Hold Up e 6 Inch a cantora se coloca como uma mulher altamente empoderada e independente dentro da relação. Se todo esse clima de relacionamento desgastado é só para a promoção do disco ou se há um anúncio de hiato conjugal, são questões secundárias ante a todo o conceito da obra.

 

E como manda a regra da industria midiática, “toda história tem um final feliz”. Em meio a um  relacionamento supostamente em crise, as canções All Night e Send Castles parecem ser o momento de romance, perdão e reconciliação que faltavam ao álbum. Forward e Pray You Catch Me, parecem que foram compostas para o documentário e resolveram deixá-las no disco, mas de modo geral não acrescentam e nem diminuem a qualidade do trabalho.

 

É uma fase muito autentica e conceitual de Beyoncé, que em partes, se deve ao fim de seu contrato com a antiga gravadora e a ida para Roc Nation, que pertence à cantora e a seu marido. Também se deve ao fruto do esforço de outros artistas que tem seguido essa mesma linha experimental como Rihanna e Kany West para promover o Tidal (serviço de streaming semelhante ao Spotify, que também pertence ao casal Cather), em que supostamente os mesmos artistas teriam maior liberdade e rentabilidade sobre seus trabalhos.

 

Lemonade está longe de ser só mais um “lixo comercial”, isto é, aqueles produtos culturais feitos apenas para o sucesso momentâneo e que depois são esquecidos e descartados rapidamente, quase sempre por falta de conteúdo. A limonada de Beyoncé consegue ser doce e ácida ao mesmo tempo, seja pela autenticidade, pela temática atual, por seus arranjos inusitados  ou pelo não conformismo às regras do mercado. Enfim temos algo que podemos dizer: Finalmente um trabalho à altura do talento e da artista que é Beyoncé.

 

A limonada que a mídia brasileira não quer beber

 

Em um mundo cada vez mais tecnológico e permeado pelos meios de comunicação  é de extrema pertinência que artistas deste calibre levantem discussões acerca de tais temas; já que pessoas historicamente negligenciadas estão tendo cada vez mais voz e, essas vozes ecoam ativamente através das redes sociais. Agora a mídia não é mais unilateral, querendo ou não, ela tem de ouvir a opinião da sociedade.

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Não precisamos ir muito longe para perceber o quanto a mídia não acompanhou ou não quis acompanhar os avanços e as conquistas sociais. A industria midiática brasileira é muito rica em exemplos de objetificação, violência simbólica e opressão às mulheres. Isto se dá em todas as esferas comunicacionais, seja na publicidade, nos programas de auditório, no meio impresso, nos telejornais ou nas telenovelas.

 

O que dizer da capa da revista Veja: Bela, recatada e do lar, que não só idealiza o perfil da mulher a ser copiado por todas, como também exclui as outra faces femininas que não se enquadram nesse prisma? As redes sociais já deram a reposta!. O que falar da escrutinação pública da esposa do atual ministro do turismo, por suas fotos ditas “indecentes” no gabinete do marido? Todo esse moralismo faz parecer que o imoral é a exposição feminina e não a situação vexatória que se encontra o modelo político do país. Não é à toa que houve pouco posicionamento da mídia tradicional à respeito da agressão física, ao vivo, de uma assistente de palco durante um programa de auditório do SBT.

 

Sem mais delongas, outro caso bastante sintomático é o da nova imagem na nota de 20 dólares. Pegando o título dado à matéria em dois portais nacionais, o G1 do grupo Globo e o Uol ligado à Rede Band, respectivamente temos o seguinte: “Mulher abolicionista substituirá presidente na nota de US$ 20” ; “Rosto de ex- escrava americana estampará a nota de 20 dólares”. Ainda que no primeiro título não haja palavras preconceituosas, a escolha dos termos é igualmente conservadora, não contribui para o que se pretendeu com o acontecimento e invisibiliza a causa, a da representatividade das mulheres estadunidenses.

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Primeiro que essa mulher tem um nome, Harriet Tubmann. Segundo que ela tem uma história, a de militância contra o regime de exceção escravocrata nos Estados Unidos, durante o séc XIX. Terceiro que houve um quantitativo de pessoas que elegeram a imagem, 600 mil votantes. Sem contar outros fatores, que poderiam e deveriam ser considerados na elaboração de ambos. Se fosse um homem, apenas por isso, seu nome e a devida contextualização apareceriam na linha titular dos mesmos.

 

Talvez um bom título seria: 600 mil pessoas elegem a imagem de Harriet Tubman para a nota de US$20. A matéria nos dois espaços é discorrida melhor, mas não situa o leitor sobre a importância dessa conquista para mulheres negras e brancas, homens negros e demais minorias raciais e sociais, em uma sociedade que tem como provável candidato à presidência a figura de Donald Trump.

 

Por essas e por outras, o novo trabalho de Beyoncé merece destaque, justamente por que toca em feridas abertas não só da sociedade estadunidense, mas também da brasileira. A obra toca fundo nas regras do mercado dos meios de massa. Não é por acaso que a cantora sofreu um certo boicote nos EUA, quando lançou o clipe de Formation; nesse sentido o Saturday Night Live fez a sátira da situação: O dia em que as pessoas brancas descobriram que Beyoncé é negra. Fica aí uma dica de humor de bom gosto.
Se por um lado os meios de comunicação tratam tais pautas de maneira genérica, por outro há artistas que vão levantar a bandeira. Alguns setores da  mídia tradicional não quer acompanhar as evoluções da sociedade civil, por que isso atinge diretamente o seu lugar de privilégio e também os interesses de alguns de seus investidores.Precisamos que surjam mais artistas e intelectuais brasileiros  que falem desses temas, mas também que eles tenham espaço e sejam ouvidos e seus produtos consumidos. Nesse caminho,  temos a internet como potencializadora de vozes a serem ouvidas e principal propagadora de bons produtos culturais.

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Consumo serve para pensar, repensar e pensar de novo

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Consumo é muito mais que gastos fúteis e compulsões tolas. O ato de consumir vai além de preferências, caprichos e aquisições impensadas. Segundo Nestor Canclini: “O consumo é conjunto de processos socioculturais em que se realiza a apropriação e os usos dos produtos.” Portanto o consumo é uma etapa cíclica da produção e reprodução social, assim, não são as necessidades individuais que definem o conteúdo, a forma e o sujeito do consumo; mas o sistema econômico que pensa como reproduzir a força de trabalho e o lucro dos produtos. Porém a relação de consumo não é dada apenas pelos agentes econômicos, mas é pautada na interação produtores e consumidores, emissores e receptores.

No texto O consumo serve para pensar, Canclini traz uma reflexão sobre como o consumo afeta a sociedade. A cidadania está diretamente ligada ao poder de consumo. Sendo assim, ele propõe uma nova abordagem do consumo a partir de uma teoria sociocultural que redefine a grande força dos meios de comunicação de massa como influenciadores desse consumo. Para o autor, consumir deixa de ser um ato irracional e se transforma em uma ação social e cultural. Segundo ele, a opção por alguns produtos acaba sendo simbólica e determina papéis que pretendemos seguir e, as comunidades as quais pertencemos.

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Mostramos como nos comunicamos, também, pelo modo que nos vestimos e pelos produtos que fazemos uso, isso aponta a qual “grupo” pertencemos ou gostaríamos de pertencer. Nesse caso, percebemos que o consumo, quando exagerado, deixa de ser uma necessidade e se torna uma maneira de se comunicar com o mundo. Um exemplo claro disso é movimento do funk ostentação, que traz indivíduos de um determinado contexto social, esbanjando um patrimônio, usando uma indumentária e consumindo produtos que não são próprios do seguimento social ao qual pertencem, reforçando assim, a ideia de querer pertencer.

Foto por Renato Frade [www.facebook.com/RenatoFradeFotografia]

Para que o consumo e a cidadania estejam interligados é necessário que haja, minimamente, três aspectos: 1) uma oferta vasta e diversificada de bens e mensagens, 2) informação confiável e multidirecional a respeito da qualidade dos produtos e 3) participação democrática dos principais setores da sociedade civil. Este modo de pensar nos leva para fora do conceito da razão instrumental (discutido em Teorias 1) no ato consumidor, para um novo patamar, o do consumo cidadão, que muito além de escolhas que satisfaçam as nossas necessidades, nos faz refletir as consequências e responsabilidades de nossas escolhas.

Usuários mediando sentidos

“[…] o eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações”. (MARTIN-BARBERO, 2002, p. 55).

Jesús Martín-Barbero

Jesús Martín-Barbero

Um dos principais expoentes dos Estudos Culturais, o teórico espanhol Jesus Martín-Barbero, desenvolveu importantes estudos ligados às análises dos meios de comunicação. Suas considerações acerca das produções culturais e a forma pela qual se dá a “recepção” são pontos-chave para a compreensão dos processos comunicacionais. Uma de suas principais proposições está relacionada às estratégias [impregnadas] desde o momento em que um estímulo (mensagem) é transmitido e o momento em que é recebido – as chamadas mediações. Isso compreende um importante aspecto do trabalho desenvolvido pelo teórico e é sobre essa perspectiva que vamos falar um pouco melhor agora.

As reflexões propostas por Barbero seguem a linha das investigações que davam conta de um “receptor ativo”, ou seja, capaz de interferir nas produções da indústria midiática. Nesse sentido, contradiz [completamente] os pensamentos de “Frankfurt” – a ideia de que os meios de comunicação eram donos de um poder inquestionável e manipulador. Agora, considera-se um “receptor” capaz de intervir na produção cultural. A propósito, entende-se que esse novo receptor é provido de capacidade suficiente para negociar a recepção – como trabalhado por Hall, por exemplo, ao abordar a codificação e decodificação.


A partir de agora devemos fugir dessa terminologia, uma vez a ideia de receptor traz aquela velha consideração de um individuo passível de “dominação”. Assim, podemos colocá-los, a partir de agora, como usuários. Nesse mesmo sentido, podemos inferir que não existe agora um único emissor. Seria muito mais sensato considerá-los como produtores – partindo dessa ideia de que toda produção cultural leva em consideração as perspectivas e expectativas dos usuários.


telefone-de-lataConsidera-se que o usuário é um indivíduo que não só recebe as mensagens, mas que é capaz de participar do processo de criação. Assim, não se pensa mais nos meios como o foco do processo, mas nas mediações influenciadas por inúmeros fatores (social, cultural, econômico e politico) do usuário. Em “De los meios a las mediaciones” (1987), Barbero propõe a Teoria das Mediações. Leva-se em conta as influencias do contexto cultural na forma pela qual se dá a interpretação da mensagem pelo individuo. As reflexões feitas por Barbero revolucionam o modo de ver a comunicação ao propor que o usuário, mais que consumidor, é capaz de produzir algo a partir das informações que recebe. Nesse sentido, o teórico propõe uma evolução onde não se deve analisar somente o meio (McLuhan), mas parte do princípio de que os indivíduos não são sujeitos livres de opinião (manipuláveis). Para isso, considera o espaço que se localiza entre os produtores da mensagem e o usuário. Logo, se justifica a ideia que promove a comunicação como sistema disposto a retroalimentar o usuário também como produtor e o produtor como usuário – rompendo de vez com a linearidade de que existe um receptor passivo. Outro aspecto que deve ser considerado é a multilateralidade na produção de conteúdo.

Barbero propõe uma nova forma de entender o processo de produção dos meios. Para ele, mais importante que criticar a manipulação e a influência da televisão é entender o usuário. O autor então passa a centralizá-lo como o foco de estudo no qual o usuário não é passivo à toda informação. Isso se torna justificável a partir da ideia de mediação que existe entre o usuário e o meio. As mais importantes são as mediações culturais e as políticas. Elas seriam toda a bagagem que o individuo já possui ao assistir ou ler uma noticia, por exemplo. Há, às vezes, uma recusa em aceitar o que é transmitido, retirando assim toda ideia de receptor simplesmente consumidor da informação. Existe uma necessidade, portanto, em considerar que o usuário tem uma predisposição em negociar as mensagens pelos meios produzidas. Assim, deve-se levar em consideração que não existe um indivíduo inculto.

Barbero chega a considerar uma sociedade civil não massiva. Nela se caracteriza “um espaço de deliberação social, interação discursiva, autonomia da formulação dos próprios interesses e pluralismo”. Ela possui um campo de discussão politica e cultural. Nesse sentido, a TV vem a com intenção de pautar o assunto dessa sociedade (agenda-setting). A mídia se torna portadora de opiniões ao escolher o que vai entrar em discussão na esfera pública. Barbero retrata, dentro desse meio, a chamada empresarialização que teria o significado de “passar de uma organização familiar para uma gestão empresarial”. Elas [opiniões] se tornam padronizadas quanto ao conteúdo tornando-o cada vez mais específico. Além disso a TV, antes direcionada para um público aberto, passa a ter um público alvo. Em meio a tudo isso, sabe-se que ela é mais um ator social dentro da sociedade. Daí a ideia de que “não há narrativa cultural que não seja contada”.

Seria a Literacia, possível?

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda”. Paulo Freire

A Literacia Midiática refere-se, num primeiro momento, ao estudo do comportamento das mídias. Num segundo, está ligada à capacidade dos ‘’usuários’’ em sua relação com os “meios” e com seus conteúdos – abrangendo desde a sua criação até o seu modo de acesso. A análise não é feita somente com o foco na recepção da mensagem – recebida de diferentes formas-, mas também leva em consideração como o usuário interage com esse “estímulo”.

Tirinhas do Armandinho

Tirinhas do Armandinho

Os estudos nessa área abrangem o modo como vemos, a maneira que analisamos e como lidamos com a mídia. A TV – ferramenta importante para a formação da opinião – assim como toda produção midiática, torna-se um dos alvos centrais para esse estudo. A Literacia se dedica a pensar além da relação entre uma mensagem que é transmitida e a forma como ela é recebida. A propósito, está intimamente relacionada à capacidade com que um indivíduo tem de receber determinada mensagem e, sobretudo, pensar criticamente a partir dela.


Ao considerarmos que nenhuma pessoa é livre de opiniões, pois elas já estão, de certa forma, estabelecidas culturalmente, evoluímos de um contexto que considerava essas pessoas apenas como receptores – passíveis e sob influência unilateral por parte dos mídia. Agora devemos considerá-los como usuários, uma vez que existe a possibilidade de interação com o conteúdo. Sendo assim, nenhuma transmissão pode ser definida de um jeito, pois há várias maneiras de recepção. Isso será definido por aquilo que está entre o “emissor” – por que não considerá-lo agora não mais como emissor, mas como produtor?-, e os usuários, isto é, as [chamadas] mediações. Considera-se, assim, a forma pela qual se dá a recepção – por que não pensar, portanto, em aceitação?- e, por consequência, como isso gera um “produto” para os mídia. Nesse sentido, trata-se de um avanço aos pensamentos que se dedicavam somente a analisar os “meios de comunicação” como “agentes absolutos” desse processo, pois passa a considerar a relação desenvolvida pelo usuário com a “mensagem”, bem como as consequências dessa relação.


Segundo Livingstone (2004), Literacia Midiática seria a capacidade de analisar, avaliar e criar mensagens através de uma variedade de contextos diferentes.  Sendo assim, os fatores a serem considerados para promoção da Literacia Midiática são as competências individuais, pessoais e sociais bem como fatores ambientais. As competências estão relacionadas com o uso, o entendimento crítico, e a capacidade de comunicação. O âmbito individual seria o do contato, do manuseio e da aprendizagem do modo de funcionamento dos dispositivos digitais.

O pessoal está ligado à leitura crítica das mídias que requer competências para compreender e avaliar criticamente os textos midiáticos com base em seus conteúdos, bem como para entender os princípios para que se possa fazer um uso consciente da mídia e criar conteúdos que respeitem os direitos individuais do consumidor.

Já o social esta relacionado com a capacidade de se comunicar criticamente, bem como participar ativamente e estabelecer atividades sociais através das mídias. As habilidades comunicativas e participativas estão relacionadas com as habilidades técnicas e cognitivas. Sendo assim essas condições propiciam as condições para o desenvolvimento das relações sociais, para a criação de conteúdo e a participação social em redes e comunidades de forma ativa e responsável.

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Literacia significa da importância à participação ativa do público como instrumento para a avaliação do papel fundamental da cidadania. A conscientização do forte papel que a mídia tem no nosso cotidiano problematiza e prioriza o estudo da televisão. Através dos índices de audiência e envolvimento do público com as várias dimensões da mídia (celular, internet, rádio, televisão, jornal e cinema) se constrói as competências sociais, individuais e pessoais.

É preciso avaliar o produto vinculado pela mídia a partir de quem o faz e dos critérios envolvidos na sua produção para se compreender o que é necessário para que se consiga chegar na produção de um conteúdo que respeite os direitos do consumidor, ou seja, usar a mídia com responsabilidade. Assim o indivíduo teria acesso há um produto que já é crítico em sua natureza, o que o instigaria a ser mais crítico e ativo em seu meio, fazendo dele mais que um mero receptor mais também um produtor de informação.

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Para se alcançar essa meta o meio informativo deveria ser crítico .Assim ele seria capaz de produzir um conteúdo que vai além de fatos mas que faz o receptor refletir a informação que lhe passada. Esse parece um ideal comunicativo um pouco longe de se tornar realidade, diante do panorama que nos encontramos, em que o interesse e lucros regem a produção jornalística. Essa barreira teria que ser quebrada para por em prática a proposta da produção e utilização racional da mídia. No entanto, a análise dos textos midiáticos está cada vez mais rasa diante da pressa em se dar a notícia primeiro que concorrentes.

Contudo, podemos exigir melhoras na regulamentação da mídia que possam, se não acabar, ao menos diminuir esse problema. É fundamental analisar o próprio texto midiático em seus diferentes aspectos para chegar numa conclusão melhor sobre o que eles escrevem. Também devemos, por conta própria, filtrar os textos midiáticos e buscar fazer análises do conteúdo deles, mesmo que não favoreçam esse processo.

NETFLIX e o [des]controle de conteúdo

Netflix

Netflix

O teórico canadense Marshall McLuhan desenvolveu um importante trabalho relacionado ao papel dos novos meios de comunicação e sua influência e relevância no processo comunicacional. Ao propor os impactos que um novo meio teria em relação à sociedade, apontou quatro aspectos que compõem “tétrade”. Nesse sentido, a partir das considerações do teórico, sobretudo, no que se refere ao papel que as novas tecnologias desempenham sobre as tecnologias já estabelecidas, vamos analisar os efeitos realizados [e provocados] pelo “Netflix” dentro desse contexto.

Tétrade de McLuhan

Tétrade de McLuhan

Podemos começar a realizar essa análise considerando que todo novo meio provocará uma mudança nos meios que já estão, de certa forma, estabelecidos. Nesse sentido, podemos inferir que o Netflix, como conceito, traz uma proposta e uma intenção que diferem dos meios tradicionais como, por exemplo, a TV. Talvez seja, nesse aspecto, que o serviço se distingue tanto. O Netflix representou um avanço às grades de programação consolidados e intocáveis da TV – sobretudo da TV aberta. O serviço aperfeiçoa ao unir ao menos três dos nossos sentidos. O streaming amplia nossa visão, nossa audição e nosso tato (pensando na provável utilização de dispositivos como tabletes e smartphones).

O streaming permitiu grandes avanços no modo de assistir filmes, séries e shows. A partir daí tornam-se obsoletas as grades de programação fechadas desenvolvidas pelas TV’s.

Netflix

Netflix

Reverte numa [possível] quebra do monopólio sobre o que, a que horas iremos assistir. Ocorre uma viabilização da descentralização do único meio que antes controlava o conteúdo. O produto chega até o espectador no momento em que ele achar conveniente. Mais importante que o conteúdo é o meio que a mensagem é transmitida (“The Medium is the Message”). O Netflix permite com que o usuário assista à “mensagem” seja recebida de diversas formas como em tablete, celular, computador e na própria TV – para isso é necessário ter uma conexão com a internet. Nesse sentido, poderíamos considerar o serviço como um subproduto da “grande rede” e serve, assim, como um ponto de recuperação de um “meio” já estabelecido. O Netflix representa uma nova possibilidade: a oportunidade do “controle” do conteúdo. Representa um novo jeito de assistir TV pois amplia, cada vez mais, nossa capacidade de interação.

O serviço só se tornou possível a partir de um avanço e aperfeiçoamento no serviço de internet. Assim, podemos considerar a recuperação. O Netflix se aproveita de um recurso já presente, ou seja, recupera aspectos e características pré-existentes. Se aproveita ainda do som e da imagem já consolidados pelo rádio e pela TV.

*Embora exista uma liberdade de escolha, o usuário ainda se encontra restrito ao conteúdo presente no catálogo do serviço. **Ultra HD (o Netflix já oferece um suporte para transmissão em qualidade de ultra definição, também conhecida como 4K, ou seja, uma qualidade de resolução duas vezes maior que o HD convencional).

*Embora exista uma liberdade de escolha, o usuário ainda se encontra restrito ao conteúdo presente no catálogo do serviço.
**Ultra HD (o Netflix já oferece um suporte para transmissão em qualidade de ultra definição, também conhecida como 4K, ou seja, uma qualidade de resolução duas vezes maior que o HD convencional).


É preciso observar que embora o serviço seja um grande avanço no controle de conteúdo, ainda existe uma [importante] limitação no que se refere à dependência do “catálogo”. Isso significa que a “liberdade é cerceada” a partir do momento que a opção de conteúdo se limita à disponibilidade do arquivo no serviço. Podemos exemplificar comparando o catálogo brasileiro (onde o Netflix está desde 2011) que é bem menor do que o catálogo americano (onde o serviço nasceu em 1997 e tem seu maior número de assinantes). Nesse sentido, caso um usuário brasileiro queira assistir à um conteúdo que somente esteja disponível no banco de dados americano, ele provavelmente [por meios legais] não conseguirá. Isso indica que o que existe, na verdade, é um descontrole do conteúdo.


 

(De)Codificando a ‘Noite’

Programa The Noite, SBT.

Programa The Noite, SBT.

Stuart Hall, em seu texto Codificação e Decodificação, diz que não há discurso inteligível sem a operação de um código, sendo assim, os códigos empregados em variados tipos de mensagens são passíveis de interpretações (decodificações). As mensagens são codificadas de maneira a levar as audiências a terem uma leitura preferencial dos códigos. Os tipos de mensagens a serem vinculados são definidos pelas elites, e o enquadramento dessas mensagens pelos profissionais da mídia, se orientando em um código profissional.

Com forte inspiração no modelo capitalista da sociedade, Stuart Hall desenvolve o conceito de circularidade da mensagem, diferente da ideia de linearidade que muitos adotavam. No conceito linear o papel do receptor (sua capacidade de assimilar e interpretar as mensagens) era ignorado. Na ótica circular de Hall, considera- se os interlocutores, quebrando portando, a unidirecionalidade da mensagem e a onipotência de seus emissores.

As audiências, segundo Hall, decodificam as mensagens de maneira: a) dominante (em consonância com os códigos empregados), nesse tipo de decodificação o espectador interpreta as mensagens e as significam no mesmo sentido em que elas foram transmitida; b) negociada (mesclando adaptação e oposição a mensagem), nessa a audiência não se opõe fortemente, mas também, não acata prontamente os conteúdos das mensagens emitidas, apesar de na maioria das vezes uma das ações prevalecer sobre a outra, de acordo com o autor; c) oposição (destoando dos significados empregados na mensagem), nessa o receptor, de maneira mais clara, discorda  dos significados empregados na mensagem de seus emissores, dando- lhe outra significância. Essa abordagem é aplicável às mensagens embutidas nos conteúdos dos  produtos televisivos.

Aplicando esses conceitos ao programa de humor e entrevistas ‘The Noite’, de Danilo Gentili, exibido pelo SBT de segunda a sexta, é possível observar os três tipos de resposta das audiências ao que é transmitido. Na televisão todos os elementos que compõem o produto dizem algo, desde o cenário do programa aos sons empregados para produzir determinado tipo de efeito.

O cenário em tons terrosos e azulados confere um clima de austeridade e aconchego, mesmo se tratando de um humorístico,hipoteticamente deixando os convidados à vontade e passando credibilidade ao público. Os recursos de áudio servem tanto para enaltecer ou para ironizar uma personalidade. A postura e indumentária do apresentador ajudam a ressaltar o clima do programa. Por fim, todos esses recursos se somam a mensagem a ser decodificada por quem assiste.

Dentro do seguimento humorístico, Danilo usa de ironias e deboches em suas entrevistas, muita vezes colocando seus convidados em situações constrangedoras. Por vezes a entrevista flui de maneira dinâmica a deixá-los menos desconfortáveis. O programa sempre traz personalidades e situações polêmicas, como em todos os tipos de ‘Talk Shows’, porque a repercussão acaba sendo maior, se utilizando [e muito] dos potenciais dos outros meios como a internet (sites, portais e redes sociais).

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Entrevista com o Pastor Caio Fábio, 2014.

A maneira como a entrevista é conduzida diz muito sobre como ela vai ser recebida. Ao entrevistar pessoas com suas mesmas visões de mundo, Danilo tenta ‘maneirar’ nas suas doses de escárnio, como na entrevista do pastor Caio Fábio, que possui visões não convencionais da religião evangélica e seus vários aspectos; e na de Marcelo Tas, ex- companheiro de programa no ‘CQC’, em que Danilo mostra sua admiração pelo colega.

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Entrevista com Luciana Genro, 2014.

Quando a situação é contrária, Danilo tenta diminuir seus convidados como no caso da entrevista com o pastor Silas Malafaia, em que o apresentador pede que a banda, que toca no programa, explique o porquê da escolha da música na entrada de Silas, que diz de maneira debochada que é porque o pastor é a favor de que as pessoas enriqueçam. Outro caso foi o da então candidata a Presidência da República Luciana Genro, onde o comediante satiriza o coeficiente de votos da candidata.

As audiências operam de maneira dominante quando reagem às entrevistas acatando a mensagem em concordância, mesmo compreendendo essa mensagem, ignoram todo o sarcasmo, em nome do entretenimento. A propósito, o telespectador pode operar no modo negociado, recebendo a mensagem e refletindo sobre a maneira que a mesma é empregada. O programa pouco informa, mas muito diverte as pessoas que curtem esse tipo de humor. Isso explicaria os níveis consideráveis de audiência de um programa exibido de madrugada. Na resposta opositiva, o programa pode até cumprir o seu papel de levar distração ao público, mas este pode ter uma leitura destoante da mensagem, mesmo compreendendo e respeitando os significados, o telespectador apenas não concorda com aquilo que é oferecido.

Assim os espectadores do ‘The Noite’ podem receber as mensagens codificadas do programa e decodifica- las a partir de suas ideologias e conhecimentos, e reproduzi-las de acordo com sua decodificação – seja em suas relações na sociedade ou em suas relações virtuais – nas mais variadas plataformas da internet.

O Paradoxo da Imortalidade

Edgar Morin

Edgar Morin

Os estudos da chamada ‘Teoria da Comunicação’ buscam entender as influências e as relações dos Meios de Comunicação de Massa e a sociedade em que estão inseridos. Se antes esses meios eram considerados irrefutáveis, donos de um poder inquestionável e manipulador (teoria hipodérmica), agora o cenário é diferente. Um de seus principais expoentes, Edgar Morin, traz em sua obra, “Cultura de Massas no Século XX”, importantes considerações desse fenômeno; é sobre algumas delas que vamos tratar um pouco melhor agora.

Com base nas influências do Culturalismo, o foco sai dos MCM e passa para as produções da chamada Indústria Cultural (jornais, revistas, história em quadrinhos, filmes). Em um mundo pós-guerra, essencialmente mecanizado, começam a aparecer classes assalariadas em busca de novos padrões de vida. A elevação do poder aquisitivo e a busca maior pelo lazer encontram, nos produtos da mass culture, uma poetização da vida, ou seja, uma visão ideal e imaginária do mundo.

Um dos principais conceitos trabalhados por Morin é o de “Simpatia e Happy End”. Ao abordar um dos mais importantes produtos da Indústria Cultural, o autor questiona a felicidade plena através da fuga da realidade proporcionada pelos filmes. Nesse sentido, o espectador tem uma identificação quase sobrenatural com o heroi, “extraordinariamente” invulnerável à morte. O ator, na figura de um “semideus” (trataremos melhor disso adiante), se torna cada vez mais “natural”, dotado de uma simpatia e semelhança insólitas, a ponto de ser exaltado como uma espécie de extensão de quem assiste.


As telenovelas, embora não tenham sido o alvo central dos estudos de Morin, correspondem de modo providencial às suas proposições. No Brasil, mais que em qualquer outro país, os folhetins são sucesso de audiência há mais de 50 anos. Assim sendo, não é demais supor que elas constituem os instrumentos dessa indústria [na tentativa] de representação ideal da existência humana. Nesse tipo de narrativa, dotada de personagens oportunos [ou seriam oportunistas?], existe cada vez mais uma personificação da vida cotidiana. Assim, não é de se surpreender a crescente participação de atores negros representando personagens que antes só seriam encenados por brancos. Mas engana-se quem pensa que existe, por traz disso tudo, uma luta contra o preconceito, em busca de uma ilusória justiça social. As novelas servem, na verdade, como propagadoras do ódio e da discriminação contra negros, homossexuais, pobres, nordestinos, empregadas domésticas.  Essas parcelas da população passaram a ser retratadas, a propósito, porque representavam uma fração importante do público que consumia esse produto e buscava [e ainda busca é verdade], de todo modo, se ver encarnado na pele do protagonista.