MET BALL 2015

Para além da moda
Por Leo Barbosa

Vivemos hoje numa sociedade mergulhada na cultura das celebridades. Indivíduos que o autor francês Edgard Morin define como Olimpianos. Esses semideuses seriam sujeitos que estariam acima do bem e do mal, no Olímpio dos holofotes da mídia, ditando o que seria aceitável ou desejável para os padrões ou estilos de vida dos mortais, isso é, pessoas comuns que estariam sujeitas a influência dessas pessoas que possuem maior exposição midiática.

O estilista Wander Saldanha, formado pelo CEFET de Divinópoles MG, em conversa informal, certa vez declarou: “A novela das nove dita muito mais a moda do que qualquer outro evento ou fashion week no Brasil.” Em outras palavras, as celebridades influenciam mais as pessoas comuns no modo de se vestir ou agir, do que qualquer profissional da área. Essa realidade não se restringe apenas ao Brasil. Tomemos o Met Ball 2015 como exemplo.

Met Gala 2015

Met Gala 2015

A Festa

O baile de gala anual promovido pelo Museu Metropolitano de Nova York e pela revista Vogue é um evento de moda conceitual e, mais que uma festividade da moda, é também um evento de publicidade muito visado pela indústria midiática. Como acontece em todos os anos, a noite de gala teve uma temática. A desse ano foi: China através do espelho. Normalmente, a festa dá início à exposição de primavera do museu, que segue a mesma temática da festa. A ocasião é um evento beneficente para arrecadar fundos para o instituto de moda do museu e é um evento seleto e muito concorrido. A edição desse ano contou com 600 convidados e cada convite chegava a 10 mil dólares.

O Met Gala seria o espaço que as celebridades teriam para ousar no vestuário – fugindo do comum, do óbvio, passando ao extravagante e ao excêntrico, muitas vezes beirando ao ridículo. A ocasião é também, para os profissionais da moda, a oportunidade de divulgar o seu produto e a sua marca, tendo como “garotas propaganda” as personalidades mais famosas do mundo, gerando publicidade gratuita e grande exposição no mercado. Na maioria das vezes os estilistas cedem gratuitamente suas criações aos convidados, em troca do retorno publicitário que estes proporcionam ao seu produto e à sua marca, influenciando, assim, o que será tendência para as passarelas e para as ruas na estação.

MET BALL 2015

Rihanna, Sarah e Solange

outras

Anne e Reese

Nessa proposta do exagero e da temática acima citada, quem se destacou certamente foi Rihanna com seu look amarelo imperial (na China antiga só pessoas importantes usavam amarelo) e o tecido encorpado remetendo ao inverno chinês. Sarah Jessica Park com vestido lembrando quimono e chapéu de acento chinês. Solange Knowles com seu vestido inspirado em orquídea chinesa. É possível ser extravagante com simplicidade? Sim, é possível. Anne Hathaway estava deslumbrante com um vestido de corte tradicional, com um capuz inovador no degolo, num dourado comedido – remetendo à riqueza da China. Reese Whiterspoon também não fez feio, foi com um vestido tradicional, com uma fenda provocante na cor vermelho da bandeira chinesa.

Alguns looks não fugiram muito da temática, mas poderiam ter uma pitada maior de excentricidade, como os de Anna Wintour, editora chefe da Vogue e anfitriã da festa, que talvez não quisesse roubar o brilho dos convidados; outros eram apenas excêntricos e esbanjavam transparência, como os de Beyoncé cravejado de cristais e jades ( pedra típica do país), de Kim Kardashian que poderia se encaixar mais na temática da festa; o de Jennifer Lopez que mesmo inspirado no tema, poderia ser mais condizente com sua idade. Ela esté em forma e a idade não impede nada, mas tudo tem uma medida adequada.

ousadas

Beyonce, Jennifer e Kim

Houve também quem errou e errou feio. Caso de Karry Washington, Cara Delavigne e Diane Kruguer, que mesmo usando marcas consagradas (Prada, Stella McCartney e Chanel, respectivamente) pareciam estar indo para uma festa a fantasia, ou usando roupas do seu dia a dia. As produções masculinas, raramente trazem algo novo nesse evento. Uma estampa inusitada aqui ou um corte mais trabalhado ali, mas nada que mereça destaque.

inadequadas

Karry, Cara e Diane

Para pensar

Anna Wintour

Mas o que isso muda na vida das pessoas que não são famosas? Bem, cada peça representa a coleção de sua marca ou estilista, depois que o conceito vai para as passarelas ele é traduzido para o mercado. Assim as cores, a modelagem, os adornos e acessórios são traduzidos de maneira minimalista para a moda comercial. Exemplificando: O vestido da Anna Wintour com estampa de flores de cerejeiras e ombreiras marcantes, é só pra dizer que o floral estará de volta e o estilo romântico nos vestidos estará em alta. Mesmo que em proporções diferentes da novela, esse tipo de cerimônia influencia o modo como a moda vai ser consumida, porque as celebridades ali expostas, estão levando um ideal de glamour e elegância, que “deve” ser seguido pelos demais.

Nesse tipo de evento, dado o número gigantesco de convidados, ocorre encontros inusitados que certamente agradam ou frustram os fãs de cada personalidade, até mesmo a mídia. Um fato que conseguiu chamar tanto atenção quanto os visuais exóticos das celebridades, sem dúvida, foi o encontro de três grandes artistas pop da atualidade: Katy Perry, Lady Gaga e Madonna.

Katy Perry, Madonna e Lady Gaga

Katy Perry, Madonna e Lady Gaga

Os fãs, para afirmar o talento de sua cantora favorita, acabam criando rixas inexistentes entre elas, se envolvendo constantemente em brigas com os fãs- clubes das outras artistas. A imprensa se apropria dessas rixas, alimentando as brigas com declarações distorcidas ou fictícias, para venderem seus produtos como revistas e tabloides de fofoca. Em certo ponto as celebridades podem até ter sua vaidade ferida e responder no mesmo tom – ou até aproveitar o burburinho para se promover ainda mais-,mas chega uma hora que esse jogo cansa.

Esse encontro poderia ser visto como a oportunidade de aplacar as brigas entre fãs, mas também representaria o fim desse jogo sujo e rasteiro, que a mídia insiste em explorar, colocando grandes artistas com talentos distintos uns contra os outros. Também seria a chance de uma nova abordagem da mídia e a possibilidade que o público teria de ser livre para aproveitar o melhor de cada artista. Assim o Met Ball 2015, com todas essas futilidades do espetáculo, consegue trazer algo novo não só para a indústria da moda, mas também para a indústria da música e da imprensa.

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A Rainha de Coração Rebelde

Por Leo Barbosa

A mais de 30 anos na indústria fonográfica, a rainha do pop Madonna antecipou o lançamento de seu 13º álbum de estúdio, o Rebel Heart, para fevereiro devido aos vazamentos de canções ainda não finalizadas, que ocorreram no finalzinho de 2014. Antes do lançamento oficial do CD, mais músicas continuaram vazando e a sensação que se teve é que a própria equipe da cantora, numa tentativa desesperada, estava divulgando o material para medir a aceitação do público. Mas era muito cedo para fazer qualquer juízo sobre o novo trabalho da cantora, por se tratarem de canções demo. Tudo indicava que teríamos mais um CD aquém do nível que se espera de Madonna.

Rebel Heart, Madonna (2015)

Rebel Heart, Madonna (2015)

Em uma jogada de marketing, seis faixas já terminadas do material foram disponibilizadas para download no iTunes: Living For Love, Devil Pray, Ghosttown, Illuminati, Unapologetic Bitch, Bitch I’m Madonna. As músicas atingiram o topo das paradas de sucesso de vários países ao redor do mundo. Mesmo assim ainda era cedo para avaliar como seria esse disco – primeiro porque eram apenas seis canções e segundo que as músicas poderiam ter sido escolhidas por serem as melhores.

Com o lançamento oficial, todos que ouviram o CD não finalizado antes  ficaram surpresos ao ouvir canções bem trabalhadas, com letras poderosas, sonoridade agradável, arranjos inesperados e batidas marcantes. A verdade é que quando se trata de Madonna, pouco importa se o CD é ótimo como Like a Prayer de 1989, se é médio como Music de 2000, ou se não é bom como Hard Candy de 2008. O que cada fã quer de verdade é ter acesso ao novo material da cantora; é ver que mesmo depois de todos esses anos de estrada, ela ainda continua sendo relevante e atual; é saber que mesmo com a idade já avançada para o mundo pop, ela continua sexy e atraente; é saber que mesmo com um álbum de pouca qualidade, ela consegue fazer shows incríveis e de altíssimo nível.

Rebel Heart, Madonna (2015)

Rebel Heart, Madonna (2015)

O que dizer de um CD que teria tudo para dar errado? A começar por todos os vazamentos, algumas das músicas que vazaram até conseguiam empolgar, mas as batidas enjoativas acabavam com o clima em menos de uma semana. As parcerias pouco inovadoras como a participação de Nick Minaj, não fugiam do óbvio. Todo artista americano já fez canções com ela. A produção de Avicci, que já não era o DJ mais badalado do momento, nem de longe lembrava a originalidade e frescor de Madonna em seus trabalhos. Um exemplo é Ray of Light de 1998, que teve como produtor principal Willian Orbit – até então uma interrogação para a época -, e arrebentou (o cd foi vencedor de quatro prêmios grammy).

Podia- se esperar algo fabuloso desse novo material? Talvez não. A verdade é que Rebel Heart contrariou muitas expectativas. O que poderia ser um fiasco, veio como um dos melhores trabalhos de Madonna a mais de 10 anos. O CD é o maior já lançado pela cantora em número de músicas (totalizando 25 canções na versão super deluxe do álbum), que se encaixam perfeitamente no conceito; superando seu trabalho anterior MDNA de 2012 que contava com 18 músicas, que mais parecia uma compilação de canções descartadas de outros álbuns, onde poucas salvavam. Rebel Heart se diferencia pela maturidade das letras e pelos momentos diferentes e sentimentos que cada canção proporciona, além daquela boa e velha transgressão que é própria à Madonna. O CD poderia ser dividido em um lado rebelde – com canções provocadoras e ritmos ousados – e um lado coração – com letras profundas e melodias harmônicas, resultando em uma combinação bem sucedida.

Houve um tempo em que acreditei que eu viveria para sempre. Foi um tempo que rezei a Jesus Cristo. Madonna

A temática das canções não sai da zona de conforto da cantora. Religião, amor e sexo são ingredientes da receita usada por Madonna por todas essas décadas. E essa combinação está presente no álbum, além de composições biográficas onde ela abre seu coração sobre vários aspectos de sua vida. A obra flerta com ritmos como o reggae, o rap, disco e o eletrônico. No conjunto das canções algumas poderiam ser descartadas como Autotune Baby, música que fecha o álbum e traz um “auto-tune” pesado com o som irritante de um bebê chorando ao fundo. É irônica, mas irrelevante. Caso também de Inside Out, que consegue ser um pouco melhor; é bem produzida, mas é muito fraca se comparada com as outras. Best Night é aquele tipo de música que não acrescenta em nada – só entrou no CD para completá-lo.

A despeito disso outras músicas poderiam ter entrado e não entraram. Como é o caso de Two Steps Behind Me; com uma batida dançante e letra controversa, onde Madonna fala de alguém que está sempre tentando copiá-la – talvez se referindo a Lady Gaga. Nos acertos temos Ghosttown, uma das baladas românticas mais poderosas do CD, com letra sensível e um arranjo extremamente agradável. Heartbreak City também é outra balada arrasadora, onde a diva fala de uma decepção amorosa. A canção lembra muito as da cantora Adele. Em Joan of Arc, Madonna abre seu coração dizendo que não consegue ser forte o tempo todo. Wash All Over Me, esta diferente da versão demo, mais lenta e sensível e nos faz mergulhar em sua letra. Messiah é uma composição interessante com temática religiosa e fala de poderes, amores e redenção. Beautiful Scars tem uma batida que remete ao CD Confessions on a Dancefloor, de 2005, mas bem menos House.

Madonna

Madonna

As músicas mais dançantes têm espaço no repertório de Rebel Heart. Bitch I’m Madonna em parceria com Nick Minaj, apesar da letra muito juvenil, é contagiante com o arranjo adequado e elementos de Pop e Hip Hop. Illuminati polemiza com religiões e personalidades. A versão demo era bem mais dançante. Já a oficial é mais limpa, o que não compromete a produção de Kanye West. Unapologetic Bitch é ousada e traz elementos do reggae, mas talvez soasse melhor na voz da Rihanna. A ousadia está justamente na fuga do estilo de Madonna. O teor sexual fica mais evidente em músicas como a polêmica Holy Water, que fala de sexo oral numa pegada bem rap, e é outra produção de Kanye. A canção S.E.X. parece uma canção atualizada do álbum Erótica de 1992. É Madonna sendo Madonna. A letra é bem explicita e deixa clara suas intenções sexuais para com o parceiro.

Já entre as biográficas está Rebel Heart, que dá nome ao disco; com uma melodia triunfante e notas marcantes de violão, onde a cantora confessa seu lado narcisista. Veni, Vidi, Vici um dos Rap’s do CD, é uma analise de sua carreira, onde a rainha faz referências a seus sucessos como Express Yourself, Like a Virgin, Holiday e Vogue, e traz a participação do rapper Nas. Outras faixas importantes são Living For Love, primeiro single de Rebel Heart, que fala de desilusão amorosa, mas de maneira vitoriosa, onde Madonna sai de cabeça erguida, do término, com a participação de Alicia Keys no piano. Devil Pray é encorajadora, fala de drogas e que podemos fugir ou nos esconder, mas nunca encontraremos as repostas. Uma verdadeira viagem espiritual ao som de violão e batidas eletrônicas. Body Shop que no começo parece outra pessoa cantando, mas é Madonna com uma voz bem limpa, é bem gostosinha e divertida. O restante das músicas são Hold Tigh, Iconic, Queen, Borrowed Time, Graffiti Heart e Addicted, que estão em um nível mediano do CD, mas que em suas propostas são legais.

Se isso faz você se sentir bem, então eu digo “faça isso”. Não sei pelo que você está esperando. Madonna
Rebel Heart, Madonna (2015)

Rebel Heart, Madonna (2015)

Outro aspecto importante é o visual do disco. A fotografia do encarte é adequada à proposta do CD. Um dos singles para promoção foi Living For Love, que contou com um videoclipe impecável, remetendo a tourada com vários bailarinos vestidos de minotauros em um palco de teatro com um cenário vermelho, executando coreografias trabalhas. O segundo single não poderia ser outro se não Ghosttown. No vídeo Madonna é uma sobrevivente de um apocalipse e vive numa cidade fantasma; ela caminha pelo cenário de destruição onde encontra Terrance Howard (da série Empire). Os dois dançam tango e descobrem a esperança através do amor. Coerente com a letra é um forte concorrente a indicado ao próximo Grammy.

Além dos videoclipes, antes de sair em turnê mundial para a promoção do álbum, Madonna tem investido na divulgação de Rebel Heart através de apresentações em premiações como o Grammy e o Brit Awards, festivais americanos como o I Hear Radio, e em diversos programas de TV importantes como o da Ellen Degeneres, que contou com uma semana inteira de Madonna como atração principal; e o do Jimmy Fallon, onde ela apresentou Bitch I’m Madonna, que provavelmente poderá ser o terceiro single do CD. A apresentação fez com o Rebel Heart subisse 64 posições nas paradas de sucesso. O marketing tem sido intenso e promete fazer deste álbum um dos trabalhos mais bem sucedidos de Madonna. É como dizem: quem nasce para ser rainha, jamais perde a majestade. Madonna pode até não produzir trabalhos relevantes como True Love (1987) ou Like a Virgin (1985), ou mesmo agradar o público mais jovem, mas ainda faz frente com os artistas pop dessa geração como Britney, Gaga, Beyoncé e Rihanna. Rebel Heart está aí para provar isso. Com toda a qualidade e ousadia que só uma rainha poderia proporcionar.

Confira Ghosttown

Além da Tradução

“A crítica é tão inevitável como respirar”. Eliot (1888-1965)

Eduardo Cintra Torres defende que a estrutura de uma boa crítica deve ser a de levar em consideração também o ponto de vista do leitor. Vamos continuar discutindo, através dessa conversa, as proposições feitas por Cintra analisando, desta vez, o trabalho de Eugênio Bucci [esse texto serve como um complemento à análise que o Comunica fez sobre o trabalho do crítico Pablo Villaça].

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Ao colocar o crítico no mesmo patamar que o leitor, Cintra dá ao profissional não o papel de intermediário, mas o mesmo grau de importância. Sua função positiva seria a de tentar “melhorar a obra e não destruí-la”. Uma crítica positiva, assim, seria aquela livre de considerações pessoais, ou seja, objetiva. No entanto, ao analisarmos o trabalho de Eugênio Bucci, nos deparamos com uma crítica fortemente marcada pelo uso de metáforas e analogias na sua construção. Nesse sentido, não seria demais considerar que a opinião objetiva está, de certa forma, comprometida.

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Eugenio Bucci

Bucci é bem ilustrativo quando faz o uso de enumerações como um recurso argumentativo. A própria utilização de metáforas pelo autor funciona como uma forma de personificar o “objeto” analisado como, por exemplo, quando compara os participantes de reality shows com peças em um açougue. Ao se utilizar desse recurso, Eugênio passa muito da sua visão em relação a determinado assunto. Assim, existe muito da opinião do próprio autor na crítica – não existe um afastamento de Bucci [o que seria normal para uma boa crítica] para analisar o objeto.

Apesar de usar de metáforas e analogias, o que nos permite sugerir que existe muito da opinião do próprio autor, podemos considerar a crítica de Bucci positiva em um sentido: o de tentar aproximar o “objeto” estudado do leitor através da personificação. O critico promove, de certa forma, uma nova percepção, um novo olhar do leitor em relação ao produto. O papel da crítica seria o de complementar a percepção da obra – parte-se do pressuposto de que o próprio leitor é dotado de uma base crítica sobre determinado assunto. Ao trazer temas incomuns para suas críticas, de maneira inusitada, Bucci acaba justificando, então, a proposta de Cintra Torres no sentido de que a crítica deve levar o leitor a sair do “lugar comum”. Ao crítico cabe o papel não só de traduzir, mas de dar instrumentos para melhor compreensão da obra. Logo, uma boa crítica é aquela que oferece os elementos para que o leitor reflita e, mais uma vez, tire suas conclusões.

A Trip to the Moon (Georges Méliès)

A Trip to the Moon (Georges Méliès)

Por fim, mas não menos importante, outro aspecto que merece ser considerado é o da validade da crítica. Como função, retrata e revela muito das concepções próprias de um tempo. Assim como nos lembramos de uma época através das roupas, dos sapatos e das músicas, por exemplo, a crítica traz consigo o retrato [quase] fiel da realidade em que está inserida. Nesse sentido, não seria justo considerar que a uma crítica está associada uma data de validade – como se seu conteúdo fosse, inevitavelmente, perecível. Seria muito mais correto considerar a crítica como um patrimônio. Por dois motivos: primeiro, porque retrata questões particulares da sua época; e segundo, porque é consequência de um sistema democrático de direitos, onde existe [ou deveria existir] a liberdade para se dizer o que pensa. Uma pena que cada vez mais estamos nos afastando desse direito.

Tradução x Interpretação

“Dois vivas à Democracia, um, porque admite a variedade e, dois, porque permite a crítica”. Forster (1879-1970)
Eduardo Cintra Torres

Eduardo Cintra Torres

Eduardo Cintra Torres, em “Ler Televisão: o exercício da crítica contra os lugares comuns”, faz considerações a respeito do papel do crítico enquanto um “tradutor da informação”, e também do seu texto como um instrumento para a formação da opinião. Tomando como base as análises feitas por Cintra, a partir de agora, vamos tecer algumas considerações acerca do trabalho do crítico Pablo Villaça.

Um dos maiores desafios da crítica é o de se libertar do caráter pessoal que carrega, por principio, para dar lugar a um espaço de “esclarecimentos compartilhados” tanto pelo crítico, quanto pelo leitor/espectador. Pablo Villaça, crítico de cinema desde 1994, tem um trabalho vasto de análises dos mais variados filmes. Seu texto é dotado de uma estrutura comum. No início, Villaça nos apresenta o filme trazendo uma pequena ficha técnica com diretor e roteirista (sobre os quais dedica boa parte do seu tempo) e elenco.

Pablo Villaça

Pablo Villaça

Logo no primeiro parágrafo, Villaça sugere uma análise [dialógica] que poderia ser facilmente utilizada como conclusão – o que é um tanto frustrante e desanimador por um lado, visto que o leitor, de antemão, sabe o que está por vir (o autor faz uma análise opinativa sobre o filme e acaba, por consequência, revelando o teor do que virá em seguida); e por outro, honesto, uma vez que, em nenhum momento, se propõe a dar ao leitor aquilo que ele espera. Nesse sentido, Pablo justifica Torres, ao se colocar como um ponto de fuga ao “lugar comum”. Mais que isso, oferece opções às ideias comuns ao [tentar] abordar o filme através de um “novo olhar” – técnico e objetivo (não entender que o fato de ser objetivo anula os fatores subjetivos da crítica; seria pretencioso demais acreditar nisso).

Um bom crítico é aquele que se coloca, otimista, como um intermediário entre a obra e o leitor, mesmo que a crítica não seja essencial a sua compreensão (Torres chega a propor um mesmo grau de importância entre crítico e leitor). Sendo assim, podemos considerar o trabalho de Villaça positivo, de acordo com Cintra. Embora faça uma análise opinativa, Pablo não abre mão de trazer considerações técnicas da obra, especialmente, como dito, sobre roteiro e direção. A propósito, Villaça busca tratar a crítica como um instrumento para a melhoria da criação.

2001: A Space Odyssey (1968) Interstellar (2014)

2001: A Space Odyssey (1968)
Interstellar (2014)

Pablo Villaça é editor do site Cinema em Cena e também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas. Utiliza em suas críticas uma linguagem de fácil acesso, embora não abra mão de termos técnicos para a observação da obra. Assim, Pablo desenvolve um papel importante que é não só o de criticar, mas também o de familiarizar o “novo público” ao universo técnico do cinema. É preciso, nesse aspecto, oferecer ao leitor/espectador instrumentos para que ele possa, com toda sua capacidade, tirar suas próprias conclusões. À critica cabe o papel de “tradução da informação” entre a obra o espectador. O público deve ser respeitado, em toda sua dimensão, quanto à sua opinião, não cabendo ao crítico o papel de lhe impor uma nova. O critico que se [pro]põe à “interpretar a informação”, certamente, falhará na sua obrigação.

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