Não é só mais um lixo comercial, tão ácida quanto doce, Limonada de Beyoncé mostra a que veio

 

Por: Leo Barbosa

 

A cantora estadunidense Beyoncé acaba de lançar seu novo álbum, o Lemonade. O CD é o sexto de sua carreira solo e marca uma fase de extremo empoderamento à cerca de sua etnia e seu gênero. O disco é uma ode ao feminismo negro, onde a cantora invoca toda a sua ancestralidade. O título do trabalho é uma referência clara à época em que negros tomavam limonada acreditando que iriam embranquecer. Lemonade, além do videoclipe do primeiro single Formation, conta com um documentário homônimo de quase uma hora de duração, o vídeo  estreou uma noite antes do lançamento do CD no canal HBO e traz uma Beyoncé como nunca vista.

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Muitos fãs podem ter se decepcionado em relação a musicalidade do disco, basta ver os comentários nas redes sociais como facebook e twitter, ou então nos sites especializados em músicas. De fato, parece que Beyoncé saiu da zona de conforto; ao invés de lançar mais um “hitizinho grudento”, preferiu algo mais forte e que confrontasse o machismo, o racismo e a violência policial contra negros, assuntos presentes na sociedade dos Estados Unidos. E também por que não dizer na nossa?

 

Obviamente a melodia de uma música às vezes é muito mais atraente do que a própria letra. Não é o caso de Lemonade, as mensagens em cada faixa são tão relevantes quanto as estruturas melódicas do CD. Ainda que as batidas de cada música fujam das que eram habituais à cantora, isso só prova a sua versatilidade. A diversidade de estilos musicais presentes passam pelo pop, country, rock, blues e é claro, o ritmo que a consagrou, o R&B. Isso nos leva a alguns questionamentos: É mais importante a forma ou o conteúdo? Acaso não é o papel do artista questionar, confrontar e revolucionar a mentalidade de seu público ou o contexto no qual o mesmo está situado?

 

Beyoncé não é primeira artista pop a tocar em questões polêmicas  ou a trazer mensagens sociais em suas músicas. Madonna desde o início da carreira falava de feminismo, sexo, homossexualidade, justiça sócio-racial e tabus religiosos. No mesmo sentido, Lady Gaga também traz contribuições importantes para discussões desses temas. Mas qual é a diferença? Beyoncé é uma mulher negra! Michael Jackson também nasceu negro e em algum momento tocou em questões sensíveis a sociedade estadunidense, não é mesmo? Mas com uma grande diferença, Michael era homem.

 

Em certo momento do documentário, que serve de suporte publicitário para o disco, ouvimos  a fala de Malcon X ( assassinado em 1965 aos 39 anos): “A mulher mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”  O teor da fala de Malcon é reforçado na produção com imagens de mães de jovens negros assassinados pela polícia, incluindo as mães de Eric Garner e Michael Brown, essas mulheres aparecem no vídeo segurando fotos de seus filhos e dão o clima que a produção merece.

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Mas por que um trabalho deses causa tanto reboliço? Parece que a indústria cultural, a mídia e o mundo lidam melhor com os “artistas altruístas” que lançam um olhar para além de sua realidade; do que com os que falam do seu próprio lugar de vivência. Isto não invalida a luta dos outros, muito pelo contrário, só diferencia o papel de quem luta, isto é, o seu protagonismo e experiência em relação ao assunto. Arte tem que fazer pensar. Música pop tem que divertir, distrair e entreter. Mas uma coisa não exclui a outra, o pop não precisa ser burro ou fútil o tempo todo para cumprir sua função; e nesse sentido a produção de outros artistas pop é bastante vasta., conforme já mencionado.

 

Quando Beyoncé lançou o clipe de Formation e se apresentou no Superball, algumas pessoas acusaram-na de racismo inverso. Por mais que possa existir esse tipo de discriminação, não é sabido que pessoas brancas deixam de ser contratadas nas empresas pela cor de sua pele, ou que elas são frequentemente marginalizadas e hostilizadas por isso. Tá certo que Beyoncé em seus trabalhos audiovisuais- desde a época do Destiny’s Child– sempre contou com a maior parte de equipe composta por negros, além de seguir estilos musicais em que este grupo se faz mais presentes, mas isso tem mais a ver com identificação e autoafirmação, do que com o argumento levantado.

 

Há quem fale de oportunismo midiático, quando questões do tipo estão tendo maior visibilidade.  Não é a primeira vez que cantora fala de feminismo, no disco B’day de 2006 ela já fazia claras referência as sufragistas dos anos 60, no disco Four há uma canção em que ela pergunta: Quem manda no mundo?- e responde: Garotas, além de toda a sua postura nos palcos. Portanto não se trata de oportunismo, mas sim de um momento apropriado para se colocar frente à uma discussão. E que bom que temos artistas preocupados em lançar coisas desse nível.

 

São 12 faixas extremamente bem encaixadas na proposta do trabalho, com melodias potentes e letras fortemente engajadas. Além de Formation, outra música que merece destaque é, sem dúvidas,  o blues Freedom em que Beyonce aclama os negros a abrirem suas mentes, enquanto se libertam da opressão; a faixa ainda traz a participação do ativista Kandrick Lamar. Numa pegada mais country Daddy Lessons fala da rígida criação que Beyoncé recebeu de seu pai e é outro ponto forte de Lemonade.

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Conflitos e traições são temáticas abordadas no disco. Pelo menos é o que sugerem as músicas Sorry,  e Love Drought que, mais do que isso, falam de um relacionamento abusivo e a objetificação da artista, isto é, o produto altamente lucrativo do maridão e empresário Jay Z. Já em Don’t Hurt Yourself, Hold Up e 6 Inch a cantora se coloca como uma mulher altamente empoderada e independente dentro da relação. Se todo esse clima de relacionamento desgastado é só para a promoção do disco ou se há um anúncio de hiato conjugal, são questões secundárias ante a todo o conceito da obra.

 

E como manda a regra da industria midiática, “toda história tem um final feliz”. Em meio a um  relacionamento supostamente em crise, as canções All Night e Send Castles parecem ser o momento de romance, perdão e reconciliação que faltavam ao álbum. Forward e Pray You Catch Me, parecem que foram compostas para o documentário e resolveram deixá-las no disco, mas de modo geral não acrescentam e nem diminuem a qualidade do trabalho.

 

É uma fase muito autentica e conceitual de Beyoncé, que em partes, se deve ao fim de seu contrato com a antiga gravadora e a ida para Roc Nation, que pertence à cantora e a seu marido. Também se deve ao fruto do esforço de outros artistas que tem seguido essa mesma linha experimental como Rihanna e Kany West para promover o Tidal (serviço de streaming semelhante ao Spotify, que também pertence ao casal Cather), em que supostamente os mesmos artistas teriam maior liberdade e rentabilidade sobre seus trabalhos.

 

Lemonade está longe de ser só mais um “lixo comercial”, isto é, aqueles produtos culturais feitos apenas para o sucesso momentâneo e que depois são esquecidos e descartados rapidamente, quase sempre por falta de conteúdo. A limonada de Beyoncé consegue ser doce e ácida ao mesmo tempo, seja pela autenticidade, pela temática atual, por seus arranjos inusitados  ou pelo não conformismo às regras do mercado. Enfim temos algo que podemos dizer: Finalmente um trabalho à altura do talento e da artista que é Beyoncé.

 

A limonada que a mídia brasileira não quer beber

 

Em um mundo cada vez mais tecnológico e permeado pelos meios de comunicação  é de extrema pertinência que artistas deste calibre levantem discussões acerca de tais temas; já que pessoas historicamente negligenciadas estão tendo cada vez mais voz e, essas vozes ecoam ativamente através das redes sociais. Agora a mídia não é mais unilateral, querendo ou não, ela tem de ouvir a opinião da sociedade.

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Não precisamos ir muito longe para perceber o quanto a mídia não acompanhou ou não quis acompanhar os avanços e as conquistas sociais. A industria midiática brasileira é muito rica em exemplos de objetificação, violência simbólica e opressão às mulheres. Isto se dá em todas as esferas comunicacionais, seja na publicidade, nos programas de auditório, no meio impresso, nos telejornais ou nas telenovelas.

 

O que dizer da capa da revista Veja: Bela, recatada e do lar, que não só idealiza o perfil da mulher a ser copiado por todas, como também exclui as outra faces femininas que não se enquadram nesse prisma? As redes sociais já deram a reposta!. O que falar da escrutinação pública da esposa do atual ministro do turismo, por suas fotos ditas “indecentes” no gabinete do marido? Todo esse moralismo faz parecer que o imoral é a exposição feminina e não a situação vexatória que se encontra o modelo político do país. Não é à toa que houve pouco posicionamento da mídia tradicional à respeito da agressão física, ao vivo, de uma assistente de palco durante um programa de auditório do SBT.

 

Sem mais delongas, outro caso bastante sintomático é o da nova imagem na nota de 20 dólares. Pegando o título dado à matéria em dois portais nacionais, o G1 do grupo Globo e o Uol ligado à Rede Band, respectivamente temos o seguinte: “Mulher abolicionista substituirá presidente na nota de US$ 20” ; “Rosto de ex- escrava americana estampará a nota de 20 dólares”. Ainda que no primeiro título não haja palavras preconceituosas, a escolha dos termos é igualmente conservadora, não contribui para o que se pretendeu com o acontecimento e invisibiliza a causa, a da representatividade das mulheres estadunidenses.

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Primeiro que essa mulher tem um nome, Harriet Tubmann. Segundo que ela tem uma história, a de militância contra o regime de exceção escravocrata nos Estados Unidos, durante o séc XIX. Terceiro que houve um quantitativo de pessoas que elegeram a imagem, 600 mil votantes. Sem contar outros fatores, que poderiam e deveriam ser considerados na elaboração de ambos. Se fosse um homem, apenas por isso, seu nome e a devida contextualização apareceriam na linha titular dos mesmos.

 

Talvez um bom título seria: 600 mil pessoas elegem a imagem de Harriet Tubman para a nota de US$20. A matéria nos dois espaços é discorrida melhor, mas não situa o leitor sobre a importância dessa conquista para mulheres negras e brancas, homens negros e demais minorias raciais e sociais, em uma sociedade que tem como provável candidato à presidência a figura de Donald Trump.

 

Por essas e por outras, o novo trabalho de Beyoncé merece destaque, justamente por que toca em feridas abertas não só da sociedade estadunidense, mas também da brasileira. A obra toca fundo nas regras do mercado dos meios de massa. Não é por acaso que a cantora sofreu um certo boicote nos EUA, quando lançou o clipe de Formation; nesse sentido o Saturday Night Live fez a sátira da situação: O dia em que as pessoas brancas descobriram que Beyoncé é negra. Fica aí uma dica de humor de bom gosto.
Se por um lado os meios de comunicação tratam tais pautas de maneira genérica, por outro há artistas que vão levantar a bandeira. Alguns setores da  mídia tradicional não quer acompanhar as evoluções da sociedade civil, por que isso atinge diretamente o seu lugar de privilégio e também os interesses de alguns de seus investidores.Precisamos que surjam mais artistas e intelectuais brasileiros  que falem desses temas, mas também que eles tenham espaço e sejam ouvidos e seus produtos consumidos. Nesse caminho,  temos a internet como potencializadora de vozes a serem ouvidas e principal propagadora de bons produtos culturais.

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