Por que as pessoas boas escolhem as pessoas erradas?

Por Armando Júnior

Direção e roteiro: Stephen Chbosky. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Nina Dobrev, Mae Whitman, Erin Wilhelmi, Johnny Simmons.

The Perks of Being a Wallflower, 2012

The Perks of Being a Wallflower, 2012

“As coisas mudam e os amigos se vão, mas a vida não para para ninguém.”

O filme As Vantagens de Ser Invisível (2012) aborda de maneira sutil, e ao mesmo tempo profunda, os questionamentos da adolescência. Através do horizonte do personagem principal, Charlie (Logan Lerman), somos apresentados às descobertas e aos desafios de um jovem que está prestes a começar o ensino médio. Trata-se de uma adaptação do livro de mesmo nome lançado em 2007. Neste momento, preciso deixar claro que meu propósito aqui não é estabelecer (dentro dos limites, é claro) uma comparação com a obra literária, por dois motivos: primeiro porque estamos falando de obras diferentes, com linguagens diferentes, em meios diferentes e, até certo ponto, para públicos diferentes; e segundo (como se a primeira já não bastasse), porque qualquer tentativa de comparação seria injusta ao criar certo tipo de preconceito ao considerar que nenhum filme, por princípio, será melhor que o livro. Curioso notar que, nesse caso, a adaptação para o cinema foi feita pelo próprio autor, o também roteirista Stephen Chbosky (Jericho, 2006). Se por um lado a participação criativa de Stephen traz uma expectativa de fidelidade à obra original, por outro traz a pretensão, otimista demais, de querer fazer uma “transposição [quase] integral” do livro para a tela grande.

“Não podemos escolher de onde viemos, mas podemos escolher para onde vamos.”

Charlie (Logan Lerman)

Charlie (Logan Lerman)

A adaptação (a partir de agora esquecerei que existe um livro que se aproveita do mesmo nome) traz a descoberta na adolescência com um olhar quase bucólico. Na verdade, isso serve “apenas” como um plano de fundo para discutir questões como identidade, bulling, sexualidade e até “aquilo” que tanto afugenta e interfere no comportamento de Charlie. Nesse sentido, o filme acerta ao abordar essas questões de maneira humana, tênue, como geralmente ocorrem, sem aviso prévio, sem que, para isso, a escola inteira fique sabendo. Como ocorre, por exemplo, no filme brasileiro As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010), onde os personagens principais vivem os desafios dessa fase de aceitação e descobrem, sem propósito nenhum, que o pai é gay. Toda a discussão em torno da homossexualidade, das drogas e também da

As Melhores Coisas do Mundo (2010), e Onde Vivem os Monstros (2009)

As Melhores Coisas do Mundo e Onde Vivem os Monstros

identidade são mal utilizadas. Não que o filme seja ruim, pelo contrário. Apenas trata desse tema através de uma nova perspectiva, onde as coisas acontecem e se resolvem tão rápido que a identificação com os personagens é a mesma que eu tenho com o futebol.  Diferente, por exemplo, de Onde Vivem os Monstros (Spike Jonze, 2009), onde esse assunto é tratado da forma mais sutil possível. Nele, Max foge de casa após uma discussão com a mãe e vai parar numa floresta que faz jus ao título. Embora pareça, à primeira vista, um filme de fantasia, o interessante é sacar que, na verdade, os monstros não estão na floresta, mas dentro dele mesmo. Fazendo uma analogia, dentro de Charlie, vive um monstro que, por diversas vezes, evoca as sombras do teu passado. É através dessa evocação que a narrativa vai sendo construída.

Sam (Emma Watson)

Sam (Emma Watson)

Um dos grandes acontecimentos do filme é a fotografia, assinada por Andrew Dunn. Desde o início somos apresentados a um possível problema de Charlie – por diversos momentos, quando está sozinho no quarto, o ambiente é obscuro, sinalizando seus desafios e seus questionamentos. As referências estão cuidadosamente empregadas como, por exemplo, no momento que Charlie e Sam (Emma Watson) se conhecem – o modo como ela é filmada, de baixo para cima, mostra toda a sua grandeza e importância. Como se não bastasse, logo atrás de Sam tem um refletor que ilumina metade da tela (quase um contra luz), sinalizando que a personagem veio para iluminar as sombras de Charlie. Em outra passagem, quando entram num túnel (simbolizando a superação dos problemas), Sam abre os braços como um sinal de liberdade. Curioso notar que mais uma vez a câmera focaliza Sam de baixo para cima, dessa vez num ângulo ainda mais acentuado, mostrando o crescimento de sua importância para Charlie. A propósito, passa a enquadrar ele de cima para baixo, não como um sinal de submissão, mas com o objetivo de dizer que ele está encantado por Sam. Ainda assim, se restarem dúvidas disso, Charlie completa dizendo: “eu me sinto infinito”. O que torna o trabalho de Andrew ainda mais primoroso é ver a evolução dos personagens através da construção do ambiente e sua influência na percepção por parte do público.

“Charlie – Por que as pessoas boas, sempre escolhem as pessoas erradas para namorar?
Bill – Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos.
Charlie – E nós podemos mostrar para essas pessoas que elas merecem mais?
Bill – Nós podemos tentar.”

(L-R) EMMA WATSON, LOGAN LERMAN and EZRA MILLER star in THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER Ph: John Bramley © 2011 Summit Entertainment, LLC.  All rights reserved.

Emma Watson, Logan Lerman e Ezra Miller

A escolha do elenco é o ponto alto. O trio principal formado por Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller cria um grau de identificação particular que ultrapassa os limites da telona e invadem as concepções de quem assiste. Aqui aproveito para destacar outro êxito do filme: a trilha sonora. Faço essa correspondência porque a construção da relação entre os personagens é toda feita com uma música marcante ao fundo – é impossível não se lembrar de Sam e Patrick (Ezra Miller) dançando uma “coreografia sem passos muito ensaiados”. Ou ainda na relação particular que desenvolvem dentro da caminhonete (simbolizando um mundo singular do trio) e da “música do túnel” que eles curiosamente não sabem o nome. Aqui preciso fazer um parêntese para falar da atuação de Ezra Miller que não é nenhuma surpresa, uma vez que já tinha demonstrado todo seu talento no filme Precisamos Falar Sobre Kevin (2011). No entanto, o roteiro [e a própria direção de Stephen] não soube aproveitar todo seu potencial. O roteiro têm, ao mesmo tempo, o ponto alto e o ponto baixo do filme. É sobre essas questões que discorrerei a seguir.

O fato do roteiro ser assinado pelo próprio escritor, sem dúvidas, influenciou na construção dos personagens. Quando se dispõe a mostrar a relação do personagem principal com o elenco de apoio, o roteiro é eficiente. No entanto, isso traz um grande problema no decorrer da trama: nada acontece sem que Charlie esteja presente – quanto a isso não há nenhum problema, afinal, naturalmente, a história gira em torno do personagem principal. Não obstante, isso se torna um incômodo quando a história dos personagens secundários cresce tanto [não a ponto de se tornarem tão importantes quanto a do principal] que acabam chamando a atenção do espectador. Nesse sentido o roteiro falha ao não desenvolver [mesmo que não se proponha a isso] essas histórias. Como, por exemplo, numa solução preguiçosa, Charlie narra a evolução dos outros personagens. O roteiro se demonstra oportunista, em dado momento, quando traveste essa evolução como uma perspectiva de Charlie. Nesse sentido, a decepção é ainda maior, porque dá a entender que esses personagens [e suas histórias] não são significantes para a narrativa.

Charlie e Sam

Charlie e Sam

A combinação de um bom elenco, um trabalho excepcional de fotografia e uma trilha sonora à altura compensam, mas não apagam as falhas de um roteiro contaminado pela pretensão de ser uma extensão do livro de origem. Faltou ao autor/roteirista coragem para acreditar que o contrário poderia ser feito. No fim, acabou salvo por uma história cheia de nuances, digna de atuações honestas e um final perturbador e ao mesmo tempo provocante…

– que me fazem crer que não existe vantagem nenhuma em ser invisível.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s