Não é só mais um lixo comercial, tão ácida quanto doce, Limonada de Beyoncé mostra a que veio

 

Por: Leo Barbosa

 

A cantora estadunidense Beyoncé acaba de lançar seu novo álbum, o Lemonade. O CD é o sexto de sua carreira solo e marca uma fase de extremo empoderamento à cerca de sua etnia e seu gênero. O disco é uma ode ao feminismo negro, onde a cantora invoca toda a sua ancestralidade. O título do trabalho é uma referência clara à época em que negros tomavam limonada acreditando que iriam embranquecer. Lemonade, além do videoclipe do primeiro single Formation, conta com um documentário homônimo de quase uma hora de duração, o vídeo  estreou uma noite antes do lançamento do CD no canal HBO e traz uma Beyoncé como nunca vista.

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Muitos fãs podem ter se decepcionado em relação a musicalidade do disco, basta ver os comentários nas redes sociais como facebook e twitter, ou então nos sites especializados em músicas. De fato, parece que Beyoncé saiu da zona de conforto; ao invés de lançar mais um “hitizinho grudento”, preferiu algo mais forte e que confrontasse o machismo, o racismo e a violência policial contra negros, assuntos presentes na sociedade dos Estados Unidos. E também por que não dizer na nossa?

 

Obviamente a melodia de uma música às vezes é muito mais atraente do que a própria letra. Não é o caso de Lemonade, as mensagens em cada faixa são tão relevantes quanto as estruturas melódicas do CD. Ainda que as batidas de cada música fujam das que eram habituais à cantora, isso só prova a sua versatilidade. A diversidade de estilos musicais presentes passam pelo pop, country, rock, blues e é claro, o ritmo que a consagrou, o R&B. Isso nos leva a alguns questionamentos: É mais importante a forma ou o conteúdo? Acaso não é o papel do artista questionar, confrontar e revolucionar a mentalidade de seu público ou o contexto no qual o mesmo está situado?

 

Beyoncé não é primeira artista pop a tocar em questões polêmicas  ou a trazer mensagens sociais em suas músicas. Madonna desde o início da carreira falava de feminismo, sexo, homossexualidade, justiça sócio-racial e tabus religiosos. No mesmo sentido, Lady Gaga também traz contribuições importantes para discussões desses temas. Mas qual é a diferença? Beyoncé é uma mulher negra! Michael Jackson também nasceu negro e em algum momento tocou em questões sensíveis a sociedade estadunidense, não é mesmo? Mas com uma grande diferença, Michael era homem.

 

Em certo momento do documentário, que serve de suporte publicitário para o disco, ouvimos  a fala de Malcon X ( assassinado em 1965 aos 39 anos): “A mulher mais desrespeitada nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida nos Estados Unidos é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada nos Estados Unidos é a mulher negra.”  O teor da fala de Malcon é reforçado na produção com imagens de mães de jovens negros assassinados pela polícia, incluindo as mães de Eric Garner e Michael Brown, essas mulheres aparecem no vídeo segurando fotos de seus filhos e dão o clima que a produção merece.

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Mas por que um trabalho deses causa tanto reboliço? Parece que a indústria cultural, a mídia e o mundo lidam melhor com os “artistas altruístas” que lançam um olhar para além de sua realidade; do que com os que falam do seu próprio lugar de vivência. Isto não invalida a luta dos outros, muito pelo contrário, só diferencia o papel de quem luta, isto é, o seu protagonismo e experiência em relação ao assunto. Arte tem que fazer pensar. Música pop tem que divertir, distrair e entreter. Mas uma coisa não exclui a outra, o pop não precisa ser burro ou fútil o tempo todo para cumprir sua função; e nesse sentido a produção de outros artistas pop é bastante vasta., conforme já mencionado.

 

Quando Beyoncé lançou o clipe de Formation e se apresentou no Superball, algumas pessoas acusaram-na de racismo inverso. Por mais que possa existir esse tipo de discriminação, não é sabido que pessoas brancas deixam de ser contratadas nas empresas pela cor de sua pele, ou que elas são frequentemente marginalizadas e hostilizadas por isso. Tá certo que Beyoncé em seus trabalhos audiovisuais- desde a época do Destiny’s Child– sempre contou com a maior parte de equipe composta por negros, além de seguir estilos musicais em que este grupo se faz mais presentes, mas isso tem mais a ver com identificação e autoafirmação, do que com o argumento levantado.

 

Há quem fale de oportunismo midiático, quando questões do tipo estão tendo maior visibilidade.  Não é a primeira vez que cantora fala de feminismo, no disco B’day de 2006 ela já fazia claras referência as sufragistas dos anos 60, no disco Four há uma canção em que ela pergunta: Quem manda no mundo?- e responde: Garotas, além de toda a sua postura nos palcos. Portanto não se trata de oportunismo, mas sim de um momento apropriado para se colocar frente à uma discussão. E que bom que temos artistas preocupados em lançar coisas desse nível.

 

São 12 faixas extremamente bem encaixadas na proposta do trabalho, com melodias potentes e letras fortemente engajadas. Além de Formation, outra música que merece destaque é, sem dúvidas,  o blues Freedom em que Beyonce aclama os negros a abrirem suas mentes, enquanto se libertam da opressão; a faixa ainda traz a participação do ativista Kandrick Lamar. Numa pegada mais country Daddy Lessons fala da rígida criação que Beyoncé recebeu de seu pai e é outro ponto forte de Lemonade.

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Conflitos e traições são temáticas abordadas no disco. Pelo menos é o que sugerem as músicas Sorry,  e Love Drought que, mais do que isso, falam de um relacionamento abusivo e a objetificação da artista, isto é, o produto altamente lucrativo do maridão e empresário Jay Z. Já em Don’t Hurt Yourself, Hold Up e 6 Inch a cantora se coloca como uma mulher altamente empoderada e independente dentro da relação. Se todo esse clima de relacionamento desgastado é só para a promoção do disco ou se há um anúncio de hiato conjugal, são questões secundárias ante a todo o conceito da obra.

 

E como manda a regra da industria midiática, “toda história tem um final feliz”. Em meio a um  relacionamento supostamente em crise, as canções All Night e Send Castles parecem ser o momento de romance, perdão e reconciliação que faltavam ao álbum. Forward e Pray You Catch Me, parecem que foram compostas para o documentário e resolveram deixá-las no disco, mas de modo geral não acrescentam e nem diminuem a qualidade do trabalho.

 

É uma fase muito autentica e conceitual de Beyoncé, que em partes, se deve ao fim de seu contrato com a antiga gravadora e a ida para Roc Nation, que pertence à cantora e a seu marido. Também se deve ao fruto do esforço de outros artistas que tem seguido essa mesma linha experimental como Rihanna e Kany West para promover o Tidal (serviço de streaming semelhante ao Spotify, que também pertence ao casal Cather), em que supostamente os mesmos artistas teriam maior liberdade e rentabilidade sobre seus trabalhos.

 

Lemonade está longe de ser só mais um “lixo comercial”, isto é, aqueles produtos culturais feitos apenas para o sucesso momentâneo e que depois são esquecidos e descartados rapidamente, quase sempre por falta de conteúdo. A limonada de Beyoncé consegue ser doce e ácida ao mesmo tempo, seja pela autenticidade, pela temática atual, por seus arranjos inusitados  ou pelo não conformismo às regras do mercado. Enfim temos algo que podemos dizer: Finalmente um trabalho à altura do talento e da artista que é Beyoncé.

 

A limonada que a mídia brasileira não quer beber

 

Em um mundo cada vez mais tecnológico e permeado pelos meios de comunicação  é de extrema pertinência que artistas deste calibre levantem discussões acerca de tais temas; já que pessoas historicamente negligenciadas estão tendo cada vez mais voz e, essas vozes ecoam ativamente através das redes sociais. Agora a mídia não é mais unilateral, querendo ou não, ela tem de ouvir a opinião da sociedade.

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Não precisamos ir muito longe para perceber o quanto a mídia não acompanhou ou não quis acompanhar os avanços e as conquistas sociais. A industria midiática brasileira é muito rica em exemplos de objetificação, violência simbólica e opressão às mulheres. Isto se dá em todas as esferas comunicacionais, seja na publicidade, nos programas de auditório, no meio impresso, nos telejornais ou nas telenovelas.

 

O que dizer da capa da revista Veja: Bela, recatada e do lar, que não só idealiza o perfil da mulher a ser copiado por todas, como também exclui as outra faces femininas que não se enquadram nesse prisma? As redes sociais já deram a reposta!. O que falar da escrutinação pública da esposa do atual ministro do turismo, por suas fotos ditas “indecentes” no gabinete do marido? Todo esse moralismo faz parecer que o imoral é a exposição feminina e não a situação vexatória que se encontra o modelo político do país. Não é à toa que houve pouco posicionamento da mídia tradicional à respeito da agressão física, ao vivo, de uma assistente de palco durante um programa de auditório do SBT.

 

Sem mais delongas, outro caso bastante sintomático é o da nova imagem na nota de 20 dólares. Pegando o título dado à matéria em dois portais nacionais, o G1 do grupo Globo e o Uol ligado à Rede Band, respectivamente temos o seguinte: “Mulher abolicionista substituirá presidente na nota de US$ 20” ; “Rosto de ex- escrava americana estampará a nota de 20 dólares”. Ainda que no primeiro título não haja palavras preconceituosas, a escolha dos termos é igualmente conservadora, não contribui para o que se pretendeu com o acontecimento e invisibiliza a causa, a da representatividade das mulheres estadunidenses.

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Primeiro que essa mulher tem um nome, Harriet Tubmann. Segundo que ela tem uma história, a de militância contra o regime de exceção escravocrata nos Estados Unidos, durante o séc XIX. Terceiro que houve um quantitativo de pessoas que elegeram a imagem, 600 mil votantes. Sem contar outros fatores, que poderiam e deveriam ser considerados na elaboração de ambos. Se fosse um homem, apenas por isso, seu nome e a devida contextualização apareceriam na linha titular dos mesmos.

 

Talvez um bom título seria: 600 mil pessoas elegem a imagem de Harriet Tubman para a nota de US$20. A matéria nos dois espaços é discorrida melhor, mas não situa o leitor sobre a importância dessa conquista para mulheres negras e brancas, homens negros e demais minorias raciais e sociais, em uma sociedade que tem como provável candidato à presidência a figura de Donald Trump.

 

Por essas e por outras, o novo trabalho de Beyoncé merece destaque, justamente por que toca em feridas abertas não só da sociedade estadunidense, mas também da brasileira. A obra toca fundo nas regras do mercado dos meios de massa. Não é por acaso que a cantora sofreu um certo boicote nos EUA, quando lançou o clipe de Formation; nesse sentido o Saturday Night Live fez a sátira da situação: O dia em que as pessoas brancas descobriram que Beyoncé é negra. Fica aí uma dica de humor de bom gosto.
Se por um lado os meios de comunicação tratam tais pautas de maneira genérica, por outro há artistas que vão levantar a bandeira. Alguns setores da  mídia tradicional não quer acompanhar as evoluções da sociedade civil, por que isso atinge diretamente o seu lugar de privilégio e também os interesses de alguns de seus investidores.Precisamos que surjam mais artistas e intelectuais brasileiros  que falem desses temas, mas também que eles tenham espaço e sejam ouvidos e seus produtos consumidos. Nesse caminho,  temos a internet como potencializadora de vozes a serem ouvidas e principal propagadora de bons produtos culturais.

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As Luas de Marte

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Como atividade para a disciplina de Comunicação e Expressão Escrita, fomos desafiados a criar uma história que se valesse da narrativa hipermídia. O objetivo era desenvolver o trabalho utilizando os princípios básicos desse tipo de narração: hibridização da linguagem, banco de dados, multilinearidade e interatividade. Diante do desafio, ficamos tão instigados que criamos: As Luas de Marte.

Trabalhando com a ideia da narração em “meios” diferente, pensamos em desenvolver a história dos quatro satélites e do planeta central em realidades diferentes. Nesse sentido, propomos a criação de um livro que contaria a história de Ágora e serviria como forma de reunir e encadear as histórias. Enquanto isso, Zerah seria trabalhada num game. Uma vez que se trata de um mundo ainda inexplorado, o jogo possibilitaria a construção da narrativa a partir da perspectiva do usuário. Essa é a mesma intenção de trabalhar com uma HQ sobre Cretácia – a ideia aqui é relacionar o mundo mais antigo que se conhece com a origem dos filmes fantásticos: as histórias em quadrinhos. A narrativa nas telonas contará a construção do reino mais peculiar: GermanKa. Por fim, Binarius será abordada em uma web-série.

Logo:

As Luas de Marte

As Luas de Marte

A hibridização seria empregada ao utilizarmos as linguagens características de cada meio para contar as histórias. Elas estarão todas em banco de dados permitindo, assim, um conjunto de ações pré-estabelecidas para o usuário. Interessante notar que essas ações não servirão [e nem podem] como uma limitação. Daí a ideia de trabalhar com um “sistema-bússola”, onde cada usuário estará capacitado a interagir com o conteúdo a partir de suas necessidades e expectativas. Nesse sentido, trabalhamos a questão da multilinearidade e da interatividade. O usuário como “capitão” entrará em contato com uma narrativa sem início. A ideia de dispor de um banco de dados possibilita isso: fornecer para quem usa a possibilidade de acessar o conteúdo que quiser (seja a web-série, a HQ, o filme ou o game). A interatividade vem exatamente quando consideramos que os fóruns e chats permitirão a construção de histórias paralelas. Outro ponto que merece ser considerado é o fato da “protagonista” possuir um dom especial que lhe permite estar em qualquer um dos mundos. Sendo assim, isso abre um espaço para que o usuário, a partir dos avatares, construa a história da forma que achar conveniente.a narrativa é o próprio usuário.

Confira agora o início dessa história:


AS LUAS DE MARTE

O Domo

Em uma realidade muito distante, vive uma sociedade complexa com realidades temporal e tecnológica distintas. Em um planeta orbitado por quatro satélites – Zerah, Cretácia, GermanKa e BInarius- está a sede do governo. Ágora, como é conhecido, abriga a elite imperial que rege, pacificamente, os quatro mundos.

As Luas de Marte

As Luas de Marte

  • Zerah é um satélite onde se acredita que não haja vida. Por suas condições naturais adversas, é um lugar pouco conhecido e muito desprezado por essa complexa civilização. É em Zerah que se encontra um importante recurso natural cobiçado. O Elixir, pedra com poderes de transformar o mundo como o conhecemos se tornará o motivo central da guerra.
  • Cretácia é outro desses satélites. Com características pré-históricas, é um mundo onde as condições social e financeira são menos favorecidas.
  • Em Germanka está o principal polo ideológico dessa civilização. Nesse mundo com característica medieval se encontra o principal braço político de Ágora, o planeta central.
  • Binarius é o mundo mais desenvolvido que se conhece. Numa realidade futurista, abriga a base científico-tecnológica. Em Binarius se encontra também a principal força militar desse povo.
  • A Capital, conhecido como Ágora, reúne as famílias mais importantes. Entre elas está a Família Imperial que administra os quatro satélites.
As Luas de Marte

As Luas de Marte

Os três satélites mais o planeta central – desconsiderando Zerah por ser inabitado – coexistem em harmonia. Isso até que Talúria, um fanático religioso muito rico de Germanka, se baseando em uma antiga profecia, acredita estar destinado a depor o sistema de governo dessa sociedade. Para isso vai para Binarus na intenção de se equipar belicamente e destituir a família real. Talúria consegue apoio de uma boa parcela do exército. A partir desse momento cria-se um movimento de revolução chamado de ‘A Resistência’. O fanático consegue dominar as redes de comunicação, transmitindo clandestinamente duras críticas ao governo. Isso gerou uma grande insatisfação de toda a sociedade.

Enquanto isso surge em Germanka um movimento contra a Resistência. Inicia-se uma cruzada contra os revolucionários. O exército germaniko aliou-se ao Exército Real contra A Resistência.  Diante da crise diplomática uma jovem guerreira de Cretácia viaja até Ágora. Mika vai para a Capital disposta a tudo para buscar maiores investimentos em seu mundo.

A jovem só não contava que Talúria, para mostrar seu poderio e amedrontar a elite de Ágora, coordenaria um ataque nuclear à Cretácia. A operação destruiu boa parte da sociedade cretana, entre elas a família de Mika. Sob o controle dos rebeldes, os meios de comunicação atribuíram o ataque à uma represália da família. Movida por vingança, Mika se alista voluntariamente na Resistência.

Disposta a tudo, a jovem guerreira cretana não medirá esforços para vingar a morte do seu povo. O exército rebelde será apenas uma preocupação para o governo central. A Capital voltará todos seus esforços para deter Mika, dona de um dom especial capaz de mudar a história.

“Nem mil homens ou mil elefantes serão capazes de impedir sua vingança. Aqueles que se colocarem diante do seu caminho estão fadados a sucumbirem na escuridão do universo. “ – Profecia Cretana


A gente se encontra em Ágora.

Por que as pessoas boas escolhem as pessoas erradas?

Por Armando Júnior

Direção e roteiro: Stephen Chbosky. Elenco: Logan Lerman, Emma Watson, Ezra Miller, Paul Rudd, Nina Dobrev, Mae Whitman, Erin Wilhelmi, Johnny Simmons.

The Perks of Being a Wallflower, 2012

The Perks of Being a Wallflower, 2012

“As coisas mudam e os amigos se vão, mas a vida não para para ninguém.”

O filme As Vantagens de Ser Invisível (2012) aborda de maneira sutil, e ao mesmo tempo profunda, os questionamentos da adolescência. Através do horizonte do personagem principal, Charlie (Logan Lerman), somos apresentados às descobertas e aos desafios de um jovem que está prestes a começar o ensino médio. Trata-se de uma adaptação do livro de mesmo nome lançado em 2007. Neste momento, preciso deixar claro que meu propósito aqui não é estabelecer (dentro dos limites, é claro) uma comparação com a obra literária, por dois motivos: primeiro porque estamos falando de obras diferentes, com linguagens diferentes, em meios diferentes e, até certo ponto, para públicos diferentes; e segundo (como se a primeira já não bastasse), porque qualquer tentativa de comparação seria injusta ao criar certo tipo de preconceito ao considerar que nenhum filme, por princípio, será melhor que o livro. Curioso notar que, nesse caso, a adaptação para o cinema foi feita pelo próprio autor, o também roteirista Stephen Chbosky (Jericho, 2006). Se por um lado a participação criativa de Stephen traz uma expectativa de fidelidade à obra original, por outro traz a pretensão, otimista demais, de querer fazer uma “transposição [quase] integral” do livro para a tela grande.

“Não podemos escolher de onde viemos, mas podemos escolher para onde vamos.”

Charlie (Logan Lerman)

Charlie (Logan Lerman)

A adaptação (a partir de agora esquecerei que existe um livro que se aproveita do mesmo nome) traz a descoberta na adolescência com um olhar quase bucólico. Na verdade, isso serve “apenas” como um plano de fundo para discutir questões como identidade, bulling, sexualidade e até “aquilo” que tanto afugenta e interfere no comportamento de Charlie. Nesse sentido, o filme acerta ao abordar essas questões de maneira humana, tênue, como geralmente ocorrem, sem aviso prévio, sem que, para isso, a escola inteira fique sabendo. Como ocorre, por exemplo, no filme brasileiro As Melhores Coisas do Mundo (Laís Bodanzky, 2010), onde os personagens principais vivem os desafios dessa fase de aceitação e descobrem, sem propósito nenhum, que o pai é gay. Toda a discussão em torno da homossexualidade, das drogas e também da

As Melhores Coisas do Mundo (2010), e Onde Vivem os Monstros (2009)

As Melhores Coisas do Mundo e Onde Vivem os Monstros

identidade são mal utilizadas. Não que o filme seja ruim, pelo contrário. Apenas trata desse tema através de uma nova perspectiva, onde as coisas acontecem e se resolvem tão rápido que a identificação com os personagens é a mesma que eu tenho com o futebol.  Diferente, por exemplo, de Onde Vivem os Monstros (Spike Jonze, 2009), onde esse assunto é tratado da forma mais sutil possível. Nele, Max foge de casa após uma discussão com a mãe e vai parar numa floresta que faz jus ao título. Embora pareça, à primeira vista, um filme de fantasia, o interessante é sacar que, na verdade, os monstros não estão na floresta, mas dentro dele mesmo. Fazendo uma analogia, dentro de Charlie, vive um monstro que, por diversas vezes, evoca as sombras do teu passado. É através dessa evocação que a narrativa vai sendo construída.

Sam (Emma Watson)

Sam (Emma Watson)

Um dos grandes acontecimentos do filme é a fotografia, assinada por Andrew Dunn. Desde o início somos apresentados a um possível problema de Charlie – por diversos momentos, quando está sozinho no quarto, o ambiente é obscuro, sinalizando seus desafios e seus questionamentos. As referências estão cuidadosamente empregadas como, por exemplo, no momento que Charlie e Sam (Emma Watson) se conhecem – o modo como ela é filmada, de baixo para cima, mostra toda a sua grandeza e importância. Como se não bastasse, logo atrás de Sam tem um refletor que ilumina metade da tela (quase um contra luz), sinalizando que a personagem veio para iluminar as sombras de Charlie. Em outra passagem, quando entram num túnel (simbolizando a superação dos problemas), Sam abre os braços como um sinal de liberdade. Curioso notar que mais uma vez a câmera focaliza Sam de baixo para cima, dessa vez num ângulo ainda mais acentuado, mostrando o crescimento de sua importância para Charlie. A propósito, passa a enquadrar ele de cima para baixo, não como um sinal de submissão, mas com o objetivo de dizer que ele está encantado por Sam. Ainda assim, se restarem dúvidas disso, Charlie completa dizendo: “eu me sinto infinito”. O que torna o trabalho de Andrew ainda mais primoroso é ver a evolução dos personagens através da construção do ambiente e sua influência na percepção por parte do público.

“Charlie – Por que as pessoas boas, sempre escolhem as pessoas erradas para namorar?
Bill – Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos.
Charlie – E nós podemos mostrar para essas pessoas que elas merecem mais?
Bill – Nós podemos tentar.”

(L-R) EMMA WATSON, LOGAN LERMAN and EZRA MILLER star in THE PERKS OF BEING A WALLFLOWER Ph: John Bramley © 2011 Summit Entertainment, LLC.  All rights reserved.

Emma Watson, Logan Lerman e Ezra Miller

A escolha do elenco é o ponto alto. O trio principal formado por Logan Lerman, Emma Watson e Ezra Miller cria um grau de identificação particular que ultrapassa os limites da telona e invadem as concepções de quem assiste. Aqui aproveito para destacar outro êxito do filme: a trilha sonora. Faço essa correspondência porque a construção da relação entre os personagens é toda feita com uma música marcante ao fundo – é impossível não se lembrar de Sam e Patrick (Ezra Miller) dançando uma “coreografia sem passos muito ensaiados”. Ou ainda na relação particular que desenvolvem dentro da caminhonete (simbolizando um mundo singular do trio) e da “música do túnel” que eles curiosamente não sabem o nome. Aqui preciso fazer um parêntese para falar da atuação de Ezra Miller que não é nenhuma surpresa, uma vez que já tinha demonstrado todo seu talento no filme Precisamos Falar Sobre Kevin (2011). No entanto, o roteiro [e a própria direção de Stephen] não soube aproveitar todo seu potencial. O roteiro têm, ao mesmo tempo, o ponto alto e o ponto baixo do filme. É sobre essas questões que discorrerei a seguir.

O fato do roteiro ser assinado pelo próprio escritor, sem dúvidas, influenciou na construção dos personagens. Quando se dispõe a mostrar a relação do personagem principal com o elenco de apoio, o roteiro é eficiente. No entanto, isso traz um grande problema no decorrer da trama: nada acontece sem que Charlie esteja presente – quanto a isso não há nenhum problema, afinal, naturalmente, a história gira em torno do personagem principal. Não obstante, isso se torna um incômodo quando a história dos personagens secundários cresce tanto [não a ponto de se tornarem tão importantes quanto a do principal] que acabam chamando a atenção do espectador. Nesse sentido o roteiro falha ao não desenvolver [mesmo que não se proponha a isso] essas histórias. Como, por exemplo, numa solução preguiçosa, Charlie narra a evolução dos outros personagens. O roteiro se demonstra oportunista, em dado momento, quando traveste essa evolução como uma perspectiva de Charlie. Nesse sentido, a decepção é ainda maior, porque dá a entender que esses personagens [e suas histórias] não são significantes para a narrativa.

Charlie e Sam

Charlie e Sam

A combinação de um bom elenco, um trabalho excepcional de fotografia e uma trilha sonora à altura compensam, mas não apagam as falhas de um roteiro contaminado pela pretensão de ser uma extensão do livro de origem. Faltou ao autor/roteirista coragem para acreditar que o contrário poderia ser feito. No fim, acabou salvo por uma história cheia de nuances, digna de atuações honestas e um final perturbador e ao mesmo tempo provocante…

– que me fazem crer que não existe vantagem nenhuma em ser invisível.

Harry Potter, fantasia real?

Por Cristiane Turnes Montezano
Um história que foi muito além da fantasia e  amadureceu com dilemas e conflitos humanos
Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte

Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2

Dirigido por David Yates, produzido por David Heyman, David Barron e J.K. Rowling, roteirizado por Steve Kloves. Reino Unido, Estados Unidos, 2011, Warner.

J. K. Rowling

J. K. Rowling

O filme que encerra uma das franquias cinematográficas mais longas e de maior sucesso nos últimos anos, marca o fim da história inspirada na série homônima de livros da autora J.K. Rowling, contada ao longo de dez anos em oito filmes. A película é a continuação da jornada, iniciada em Relíquias da Morte Parte I, do bruxinho Harry agora já não tão “inho” e seus fiéis amigos Ron e Hermione em busca das Horcruxes que devem ser destruídas para que o vilão que Não–Deve–Ser–Nomeado seja derrotado.Em um clima sombrio do início ao fim com exceção do epílogo, os três bruxos se aventuram no Banco Gringotes (um dos primeiros lugares mágicos apresentados na saga), voam em um dragão, conhecem um novo personagem que antes só havia sido citado, só para então com a ajuda desse voltar a Escola de Hogwarts , que agora dominada por Lorde Voldermort e dirigida por Snape, está envolta por ares obscuros, pronta para ser palco da grande batalha final. Nela estão presentes praticamente todo o elenco e ainda há a grata surpresa de pequenas participações de personagens que nos deixaram ao longo do percurso até esse final épico. E mesmo que ele pareça esperado as revelações ao longo da trama são surpreendentes (para quem não leu o livro). Em especial as respostas às perguntas principais, como o porque da estranha ligação de Harry com o Lorde das Trevas (tenham certeza a explicação encontrada por J.K. Rowling como diria o próprio Harry é Brilhante e totalmente plausível no universo da série), e o esclarecimento da dúvida,quanto a que lado Snape realmente está. Além de inesperadas mortes, pois é, os fãs não foram poupados,as perdas serão dolorosas, muitos bruxos queridos não resistirão.

Nesse último filme podemos notar o amadurecimento não só do elenco que vimos crescer. As atuações estão firmes e condizentes mais do que nunca,além do aperfeiçoamento de suas posturas cênicas. Mas também dos próprios personagens,Harry (Daniel Radcliffe) antes deslumbrado pela magia se mostra altruísta e decidido a se sacrificar com a atitude de um homem com uma escolha difícil mas necessária; Rony (Rupert Grint) está mais decidido e pronto para enfrentar seus medos (antes constantes), mal lembra aquele menino brincalhão e sem jeito do início; Hermione continua ativista e inteligente,mas já não se esconde atrás de livros, objetiva e prática sem perder sua sensibilidade, se mostra bem mais aberta escutar seus amigos. Neville o garoto atrapalhado se revela corajoso a ponto de se tornar um dos grandes heróis desse filme em uma das cenas mais decisiva da história.

download (1)Temos a oportunidade de ver Michael Gambon retornar em uma pequena participação como o professor Alvo Dumbledore sereno como sempre,mas revelando um lado seu pouco visto nos filmes anteriores a se abrir sobre seus erros do passado. Mais uma vez Maggie Smith brilha como a adorável e elegante professora Minerva McGonagall,nos proporcionando ainda um dos poucos momentos engraçados na película.Após realizar um feitiço cheio de estilo que chega a arrepiar solta a frase “Eu sempre quis usar esse feitiço!”. E não se pode esquecer de Alan Rickman que nos apresenta uma atuação indiscutível,seu enigmático Severo Snape é impecável. Seu personagem com certeza o mais complexo de toda a saga, construído de forma incrível pela autora, não seria o mesmo sem  interpretação de Rickmam, que quase nos leva as lágrimas em uma de suas últimas cenas .

A direção de David Yates se encaixa bem na trama, já familiarizada por ele, por ser o quarto filme da franquia que dirige. A fotografia sombria junto ao roteiro de Steve Kloves e planos aéreos que acompanham a voz fantasmagórica de Voldermort pelos corredores da escola de magia, cria o clima perfeito de tensão que a presença do vilão causa em todos (que o diga Lúcio Malfoy que de postura  prepotente e figura impecável aparece tenso,desorientado e desalinhado de um modo que chega a ser quase cômico para quem acompanhou a saga). Mas a dupla derrapa um pouco ao fazer modificações no enredo apenas para obter efeitos que dessem utilidade ao uso do 3D que é desnecessário,em especial na forma como ocorrem duas mortes (até no mundo mágico criado por J.K. Rowling ver os personagens se desintegrarem e virarem pó não faz muito sentindo ,para que perder tempo executando dois feitiços quando apenas um resolveria o problema de forma muito mais eficaz?). Yates também peca ao não dar destaque a perda de alguns personagens importantes que mereciam um final mais emocionante até mesmo por suas trajetórias .

David Yates e Daniel Radcliffe

David Yates e Daniel Radcliffe

Em compensação o diretor dá um tom super humano aos acontecimentos. Os longos momentos de silêncio,muito bem explorados, mostram que os combatentes não estão alheios ao que acontece ao seu redor e sentem a dor e destruição provocados pela batalha. E aí a escolha da trilha sonora é bem acertada. Composta por Alexandre Desplat ela reflete a melancolia e tristeza sentidas por todos incluindo o espectador, que assisti a escola de magia que representa todo aquele universo se converter em ruínas e palco de tantas mortes. Mas antes de terminar a franquia deixa um ar de frescor no ar, nos relembrando (não que precise pois para os fãs já é inesquecível) o tema principal da série composto por John Willians que não podia ficar de fora dessa despedida.

Pois é essa é a despedida a última vez que o Expresso de Hogwarts parte da plataforma 9 ¾ . Tivemos a oportunidade de ver uma aposta da Warner que a princípio parecia loucura crescer e se tornar um sucesso de bilheteria. Vimos o mundo criado por J.K.Rowling saltar dos livros e tomar forma nas telonas. Apesar de muitos fãs reclamarem devido aos cortes que a história sofreu no processo de adaptação se pararmos para refletir ela foi bem executada, são gêneros muito diferentes e tratar de mais de 400 ou até de mais de 700 páginas em duas horas e meia é uma tarefa desafiadora. Além de que ficou evidente nesses dois últimos filmes,originados do último livro da sequência que o motivo da maioria dos cortes foi a falta de tempo. Mesmo que se argumente que a divisão foi feita para que se aumentasse o faturamento. Ela se mostrou necessária pois só com  existência da primeira parte do longa aspectos como o clima da narrativa pode ser construído gradualmente e explicações essenciais para compreensão da segunda parte do longa puderam ser devidamente abordados.

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Presenciamos a obra amadurecer como um todo o que faz sentido já que ela começa com o olhar de um garoto de 11 anos e termina com os conflitos e tomadas de decisão de um homem de 18, pronto a fazer o que é certo ao invés do que é fácil. As ideias construídas durante a série são incrivelmente atuais e  humanas, por traz do pano de fundo da magia e fantasia criado brilhantemente por J.K. Rowling há discussões de cunho social. Como discriminação sofrida pelos chamados “sangue ruim“ que seriam bruxos mestiços ,nascidos de pais não mágicos “trouxas” caso de Hermione. Que são repudiados por Voldemort que chega a instalar um regime que lembra o nazismo de Hittler. O preconceito social também é mostrado Ron apesar de ser um“ sangue puro “seus dois pais são bruxos, é descriminado por sua família ser mais humilde. Além de criticar esses preconceitos a história mostra a importância da amizade verdadeira que se prova mais forte que as relações baseadas no poder.

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Há também lições de coragem, dever, honra que se personalizam nos impecáveis discursos e conversas do sábio Dumbledore que resume em excelentes frases reflexões que podem ser levadas para nossas vidas “humanas de trouxa“:

“Não são nossas habilidades que revelam quem realmente somos são nossas escolhas”;

“Para uma mete bem estruturada a morte é apena uma aventura seguinte”;

“Palavras na minha nada humilde opinião são nossa inesgotável fonte de magia capazes de causar grandes sofrimentos ou remedia-los“;

“Não tenha pena dos mortos tenha pena dos vivos e a cima de tudo daqueles sem amor“;

“Amortecer a dor por algum tempo só vai torná-la pior quando você finalmente sentir”;

“Tempos difíceis nos aguardam e em breve teremos que escolher entre o que é o certo e o que é o fácil “.

E por essas razões essa série possui uma legião de fãs e tocou diversas gerações dos 8 aos 80 ,pois muito além do espetáculo dos efeitos visuais estão personagens humanos.

Então se você ainda tem alguma dúvida e acha que Harry Potter é infantil demais ou um produto de massa sem conteúdo dê uma oportunidade.E se proponha a embarcar nesse universo de mente aberta a uma experiência diferente, com um novo olhar.Você não vai se arrepender ,e se conseguir ver essas ideias nas entrelinhas vai notar que esse épico de aventura e fantasia é bem mais próximo de nossa realidade que muitos outros filmes parecem ser.

“É claro que está acontecendo na sua mente Harry, mas porque deveria significar que não é real ?”

O Mundo de Assassin’s Creed

 

Assassin´s Creed

Assassin´s Creed

Com a evolução da tecnologia e por consequência, da comunicação, surgiram diversos novos fenômenos desse segmentos. Entre eles, está a transmídia.

A Transmídia é a transição da informação para diversas plataformas de comunicação. Para que esse fenômeno aconteça, é necessário que uma mídia tenha um enredo central e elas tenham algo presente somente nessa “meio”. Um exemplo desse fenômeno é a série de jogos, livros e futura série de filmes, Assassin’s Creed.

Assassin's Creed IV: Black Flag

Assassin’s Creed IV: Black Flag

Em 2007, foi apresentado ao Universo dos games, um jogo novo e revolucionário: com alta tecnologia e uma história complexa. Assassin’s Creed se tornou um dos maiores sucessos dos últimos anos.

O enredo central dos jogos é a rivalidade entre duas sociedades secretas ancestrais: os Assassinos e os Templários, que disputam o domínio do mundo, a posse de artefatos históricos e ainda têm uma relação indireta com uma espécie que viveu antes dos humanos, cuja sociedade foi destruída por uma gigantesca tempestade solar.

Assassin's Creed IV: Unity

Assassin’s Creed IV: Unity

Com elementos históricos reais, os jogos da série se passam inicialmente em 2012, época em que Desmond Miles, um barman e descendente de uma linhagem da Ordem dos Assassinos, é sequestrado por membros das Indústrias Abstergo – uma fachada para os cavaleiros templários atuais – para descobrir a localização dos Pedaços de Éden, artefatos antigos de grande poder criados por Aqueles Que Nos Precederam. Para isso, Warren Vidic, um empregado da Abstergo, e Lucy Stillman, uma assassina infiltrada, forçam Desmond a usar o Animus, um dispositivo capaz, dentre outras coisas, de criar projeções em três dimensões a partir de memórias de ancestrais contidas no DNA, chamadas na série de memórias genéticas. A partir de tais lembranças, o dispositivo permitia ao paciente recordá-las, conferindo inclusive um controle parcial sobre as cenas, como se estivessem sendo lembradas. Desmond revive memórias de vários Assassinos, incluindo Altaïr Ibn-La’Ahad, que viveu durante a Terceira Cruzada; Ezio Auditore da Firenze, um italiano que viveu durante os séc. XV e XVI no Renascimento; e Ratohnhaké:ton, um Assassino meio-Mohawk, meio-Britânico que viveu durante a Revolução Americana. A ordem cronológica da historia é: Terceira Cruzada, Renascimento, Era Colonial, Revolução Francesa, China Imperial e Era Vitoriana.

O jogo, que foi inicialmente disponibilizado para PC, PS3 e X360 e posteriormente para PS4 e WIIU, conquistou tantos fãs que expandiu também para outras mídias e se tornou uma série de livros e ganhará em 2016 o seu primeiro filme. A série foi considerada a mais bem sucedida da Ubisoft.

Cronicando

 Por Leo Barbosa

Escrevi essa crônica em 2010 observando algumas relações de amizade. Muitas vezes, as pessoas se aproximam uma das outras apenas por conveniência, num momento de dificuldade ou desespero. Depois que suas necessidades são atendidas, algumas delas, simplesmente se afastam de maneira ingrata, ignorando o sentimento do outro lado e a profundidade da amizade.

Arvore-sem-frutos

Amizade de Estação

Então passou o verão, findaram se os risos e as alegrias se afogaram. Começara o outono que logo chegaria ao término, foi quando você mostrou seu rosto nu, cru, opaco, desnudo, sem expressão, mas com vida. Seus galhos se mostraram frágeis e torcidos, mas seu tronco ainda continuava frondoso, coisa de quem apanha muito do outono. O vento soprava, mas não derrubava. Nessa altura, o inverno havia chegado e estagnado o seu coração. A primavera não quis despertar, foi quando você soube que não viria a aurora e nem mesmo chegaria a alvorada.it

Então por clemência e obséquio do destino, um único cão, aquele que com ódio para você latia a ti se juntara e lhe quis fazer companhia, todos questionavam a solidez dessa parceria. Mais adiante, um ou dois cães se juntaram para formar a matilha, juntos os quatro vivenciaram momentos de grande euforia. Assim como o clero rejeita o pecado e a igreja abomina o diabo, para o bando estes apontavam, e destes os quatro gargalhavam.

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Nesse momento o ataque foi defesa, a defesa desnecessária, e a indiferença foi ímpar.

Um novo passo foi dado, o passado foi esquecido e o presente acabara, começava o futuro, que logo chegaria ao fim, e agora egoísta, você se viu cada vez mais sozinho. Assim como um parasita que só se valida daquilo que lhe é útil, você descartou todo o percurso das estações em um mictório, desprezando aqueles que te amaram. Foi difícil, foi amargo, foi ácido e áspero para os canídeos, mas tiveram de superar, pois você havia se tornado uma espécie de sarna impregnada em suas dermes, mas de coceira afável. Ainda queres rejeitar seus amigos?

E agora infortuniamente sozinho estas, mas casado com a mentira, sim com ela estas casado. Tua amante é a conveniência, com quem até filha já tens, hipocrisia é o seu nome. Então, já que virou anjo, vai viver o que é seu, vai cuidar daquilo que lhe é direito, vai brincar de ser feliz, vai viver o seu mundinho poético, enquanto estes demônios riem nas suas costas. Regressando o inverno, se perceber, pergunte o porquê, e saberás, pois:

O ataque é inútil, a defesa é redundante, e a indiferença é justa! E isso, apenas.

Estação Mix – Uma Viagem Musical

“Uma música nos faz viajar por vários caminhos. Com informação e diversão o rádio nos faz companhia. Na Trilha do sucesso, um bela Discografia encurta as distâncias. Nesse Mix de lugares Alternativos somos embalados com muito Som e Estilo. Um bom Papo acompanhado de um belo Café encerra a viagem. O Estação Mix é o destino dos amantes de boa música.”

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Publicidade Final

O tema ” Uma viagem musical” foi pensado em cima do nome do programa Estação Mix e do seguimento musical que o programa aborda, fazendo referência às estações ferroviárias. A imagem foi obtida através do programa Photoshop, onde a imagem do casal que aparece dançando foi inserida na imagem de uma estação de trem.

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1° Rascunho

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2° Rascunho

O texto com apelo racional dá informações do programa de rádio e o texto com argumento racional faz uma brincadeira com os nomes dos quadros do programa, que estão destacados em itálico e com as iniciais em maiúsculo. A redação publicitária, baseando- se na temática da proposta, foi definida tendo em vista que: Ao escutar uma música, de fato, há uma viagem no espaço e até no tempo, e que viajar ouvindo música torna a viagem mais agradável.  A escolha das imagens remonta a nostalgia dos anos 30 e 40, época áurea do rádio.

Foram produzidas três peças, com o mesmo processo e a mesma ideia, mudando apenas as imagens em uma delas. Em uma há uma arte moderna em cima da imagem, com linhas e recortes e na outra algo mais simples, apenas com o texto em cima da imagem. Alguns detalhes foram ajustados, como o posicionamento das frases , a cor das fontes, a exclusão dos arabescos e o acréscimo de uma frase no final do texto; para chegar no resultado final adequado da peça escolhida(primeira imagem).

Consumo serve para pensar, repensar e pensar de novo

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Consumo é muito mais que gastos fúteis e compulsões tolas. O ato de consumir vai além de preferências, caprichos e aquisições impensadas. Segundo Nestor Canclini: “O consumo é conjunto de processos socioculturais em que se realiza a apropriação e os usos dos produtos.” Portanto o consumo é uma etapa cíclica da produção e reprodução social, assim, não são as necessidades individuais que definem o conteúdo, a forma e o sujeito do consumo; mas o sistema econômico que pensa como reproduzir a força de trabalho e o lucro dos produtos. Porém a relação de consumo não é dada apenas pelos agentes econômicos, mas é pautada na interação produtores e consumidores, emissores e receptores.

No texto O consumo serve para pensar, Canclini traz uma reflexão sobre como o consumo afeta a sociedade. A cidadania está diretamente ligada ao poder de consumo. Sendo assim, ele propõe uma nova abordagem do consumo a partir de uma teoria sociocultural que redefine a grande força dos meios de comunicação de massa como influenciadores desse consumo. Para o autor, consumir deixa de ser um ato irracional e se transforma em uma ação social e cultural. Segundo ele, a opção por alguns produtos acaba sendo simbólica e determina papéis que pretendemos seguir e, as comunidades as quais pertencemos.

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Mostramos como nos comunicamos, também, pelo modo que nos vestimos e pelos produtos que fazemos uso, isso aponta a qual “grupo” pertencemos ou gostaríamos de pertencer. Nesse caso, percebemos que o consumo, quando exagerado, deixa de ser uma necessidade e se torna uma maneira de se comunicar com o mundo. Um exemplo claro disso é movimento do funk ostentação, que traz indivíduos de um determinado contexto social, esbanjando um patrimônio, usando uma indumentária e consumindo produtos que não são próprios do seguimento social ao qual pertencem, reforçando assim, a ideia de querer pertencer.

Foto por Renato Frade [www.facebook.com/RenatoFradeFotografia]

Para que o consumo e a cidadania estejam interligados é necessário que haja, minimamente, três aspectos: 1) uma oferta vasta e diversificada de bens e mensagens, 2) informação confiável e multidirecional a respeito da qualidade dos produtos e 3) participação democrática dos principais setores da sociedade civil. Este modo de pensar nos leva para fora do conceito da razão instrumental (discutido em Teorias 1) no ato consumidor, para um novo patamar, o do consumo cidadão, que muito além de escolhas que satisfaçam as nossas necessidades, nos faz refletir as consequências e responsabilidades de nossas escolhas.

Usuários mediando sentidos

“[…] o eixo do debate deve se deslocar dos meios para as mediações”. (MARTIN-BARBERO, 2002, p. 55).

Jesús Martín-Barbero

Jesús Martín-Barbero

Um dos principais expoentes dos Estudos Culturais, o teórico espanhol Jesus Martín-Barbero, desenvolveu importantes estudos ligados às análises dos meios de comunicação. Suas considerações acerca das produções culturais e a forma pela qual se dá a “recepção” são pontos-chave para a compreensão dos processos comunicacionais. Uma de suas principais proposições está relacionada às estratégias [impregnadas] desde o momento em que um estímulo (mensagem) é transmitido e o momento em que é recebido – as chamadas mediações. Isso compreende um importante aspecto do trabalho desenvolvido pelo teórico e é sobre essa perspectiva que vamos falar um pouco melhor agora.

As reflexões propostas por Barbero seguem a linha das investigações que davam conta de um “receptor ativo”, ou seja, capaz de interferir nas produções da indústria midiática. Nesse sentido, contradiz [completamente] os pensamentos de “Frankfurt” – a ideia de que os meios de comunicação eram donos de um poder inquestionável e manipulador. Agora, considera-se um “receptor” capaz de intervir na produção cultural. A propósito, entende-se que esse novo receptor é provido de capacidade suficiente para negociar a recepção – como trabalhado por Hall, por exemplo, ao abordar a codificação e decodificação.


A partir de agora devemos fugir dessa terminologia, uma vez a ideia de receptor traz aquela velha consideração de um individuo passível de “dominação”. Assim, podemos colocá-los, a partir de agora, como usuários. Nesse mesmo sentido, podemos inferir que não existe agora um único emissor. Seria muito mais sensato considerá-los como produtores – partindo dessa ideia de que toda produção cultural leva em consideração as perspectivas e expectativas dos usuários.


telefone-de-lataConsidera-se que o usuário é um indivíduo que não só recebe as mensagens, mas que é capaz de participar do processo de criação. Assim, não se pensa mais nos meios como o foco do processo, mas nas mediações influenciadas por inúmeros fatores (social, cultural, econômico e politico) do usuário. Em “De los meios a las mediaciones” (1987), Barbero propõe a Teoria das Mediações. Leva-se em conta as influencias do contexto cultural na forma pela qual se dá a interpretação da mensagem pelo individuo. As reflexões feitas por Barbero revolucionam o modo de ver a comunicação ao propor que o usuário, mais que consumidor, é capaz de produzir algo a partir das informações que recebe. Nesse sentido, o teórico propõe uma evolução onde não se deve analisar somente o meio (McLuhan), mas parte do princípio de que os indivíduos não são sujeitos livres de opinião (manipuláveis). Para isso, considera o espaço que se localiza entre os produtores da mensagem e o usuário. Logo, se justifica a ideia que promove a comunicação como sistema disposto a retroalimentar o usuário também como produtor e o produtor como usuário – rompendo de vez com a linearidade de que existe um receptor passivo. Outro aspecto que deve ser considerado é a multilateralidade na produção de conteúdo.

Barbero propõe uma nova forma de entender o processo de produção dos meios. Para ele, mais importante que criticar a manipulação e a influência da televisão é entender o usuário. O autor então passa a centralizá-lo como o foco de estudo no qual o usuário não é passivo à toda informação. Isso se torna justificável a partir da ideia de mediação que existe entre o usuário e o meio. As mais importantes são as mediações culturais e as políticas. Elas seriam toda a bagagem que o individuo já possui ao assistir ou ler uma noticia, por exemplo. Há, às vezes, uma recusa em aceitar o que é transmitido, retirando assim toda ideia de receptor simplesmente consumidor da informação. Existe uma necessidade, portanto, em considerar que o usuário tem uma predisposição em negociar as mensagens pelos meios produzidas. Assim, deve-se levar em consideração que não existe um indivíduo inculto.

Barbero chega a considerar uma sociedade civil não massiva. Nela se caracteriza “um espaço de deliberação social, interação discursiva, autonomia da formulação dos próprios interesses e pluralismo”. Ela possui um campo de discussão politica e cultural. Nesse sentido, a TV vem a com intenção de pautar o assunto dessa sociedade (agenda-setting). A mídia se torna portadora de opiniões ao escolher o que vai entrar em discussão na esfera pública. Barbero retrata, dentro desse meio, a chamada empresarialização que teria o significado de “passar de uma organização familiar para uma gestão empresarial”. Elas [opiniões] se tornam padronizadas quanto ao conteúdo tornando-o cada vez mais específico. Além disso a TV, antes direcionada para um público aberto, passa a ter um público alvo. Em meio a tudo isso, sabe-se que ela é mais um ator social dentro da sociedade. Daí a ideia de que “não há narrativa cultural que não seja contada”.

MET BALL 2015

Para além da moda
Por Leo Barbosa

Vivemos hoje numa sociedade mergulhada na cultura das celebridades. Indivíduos que o autor francês Edgard Morin define como Olimpianos. Esses semideuses seriam sujeitos que estariam acima do bem e do mal, no Olímpio dos holofotes da mídia, ditando o que seria aceitável ou desejável para os padrões ou estilos de vida dos mortais, isso é, pessoas comuns que estariam sujeitas a influência dessas pessoas que possuem maior exposição midiática.

O estilista Wander Saldanha, formado pelo CEFET de Divinópoles MG, em conversa informal, certa vez declarou: “A novela das nove dita muito mais a moda do que qualquer outro evento ou fashion week no Brasil.” Em outras palavras, as celebridades influenciam mais as pessoas comuns no modo de se vestir ou agir, do que qualquer profissional da área. Essa realidade não se restringe apenas ao Brasil. Tomemos o Met Ball 2015 como exemplo.

Met Gala 2015

Met Gala 2015

A Festa

O baile de gala anual promovido pelo Museu Metropolitano de Nova York e pela revista Vogue é um evento de moda conceitual e, mais que uma festividade da moda, é também um evento de publicidade muito visado pela indústria midiática. Como acontece em todos os anos, a noite de gala teve uma temática. A desse ano foi: China através do espelho. Normalmente, a festa dá início à exposição de primavera do museu, que segue a mesma temática da festa. A ocasião é um evento beneficente para arrecadar fundos para o instituto de moda do museu e é um evento seleto e muito concorrido. A edição desse ano contou com 600 convidados e cada convite chegava a 10 mil dólares.

O Met Gala seria o espaço que as celebridades teriam para ousar no vestuário – fugindo do comum, do óbvio, passando ao extravagante e ao excêntrico, muitas vezes beirando ao ridículo. A ocasião é também, para os profissionais da moda, a oportunidade de divulgar o seu produto e a sua marca, tendo como “garotas propaganda” as personalidades mais famosas do mundo, gerando publicidade gratuita e grande exposição no mercado. Na maioria das vezes os estilistas cedem gratuitamente suas criações aos convidados, em troca do retorno publicitário que estes proporcionam ao seu produto e à sua marca, influenciando, assim, o que será tendência para as passarelas e para as ruas na estação.

MET BALL 2015

Rihanna, Sarah e Solange

outras

Anne e Reese

Nessa proposta do exagero e da temática acima citada, quem se destacou certamente foi Rihanna com seu look amarelo imperial (na China antiga só pessoas importantes usavam amarelo) e o tecido encorpado remetendo ao inverno chinês. Sarah Jessica Park com vestido lembrando quimono e chapéu de acento chinês. Solange Knowles com seu vestido inspirado em orquídea chinesa. É possível ser extravagante com simplicidade? Sim, é possível. Anne Hathaway estava deslumbrante com um vestido de corte tradicional, com um capuz inovador no degolo, num dourado comedido – remetendo à riqueza da China. Reese Whiterspoon também não fez feio, foi com um vestido tradicional, com uma fenda provocante na cor vermelho da bandeira chinesa.

Alguns looks não fugiram muito da temática, mas poderiam ter uma pitada maior de excentricidade, como os de Anna Wintour, editora chefe da Vogue e anfitriã da festa, que talvez não quisesse roubar o brilho dos convidados; outros eram apenas excêntricos e esbanjavam transparência, como os de Beyoncé cravejado de cristais e jades ( pedra típica do país), de Kim Kardashian que poderia se encaixar mais na temática da festa; o de Jennifer Lopez que mesmo inspirado no tema, poderia ser mais condizente com sua idade. Ela esté em forma e a idade não impede nada, mas tudo tem uma medida adequada.

ousadas

Beyonce, Jennifer e Kim

Houve também quem errou e errou feio. Caso de Karry Washington, Cara Delavigne e Diane Kruguer, que mesmo usando marcas consagradas (Prada, Stella McCartney e Chanel, respectivamente) pareciam estar indo para uma festa a fantasia, ou usando roupas do seu dia a dia. As produções masculinas, raramente trazem algo novo nesse evento. Uma estampa inusitada aqui ou um corte mais trabalhado ali, mas nada que mereça destaque.

inadequadas

Karry, Cara e Diane

Para pensar

Anna Wintour

Mas o que isso muda na vida das pessoas que não são famosas? Bem, cada peça representa a coleção de sua marca ou estilista, depois que o conceito vai para as passarelas ele é traduzido para o mercado. Assim as cores, a modelagem, os adornos e acessórios são traduzidos de maneira minimalista para a moda comercial. Exemplificando: O vestido da Anna Wintour com estampa de flores de cerejeiras e ombreiras marcantes, é só pra dizer que o floral estará de volta e o estilo romântico nos vestidos estará em alta. Mesmo que em proporções diferentes da novela, esse tipo de cerimônia influencia o modo como a moda vai ser consumida, porque as celebridades ali expostas, estão levando um ideal de glamour e elegância, que “deve” ser seguido pelos demais.

Nesse tipo de evento, dado o número gigantesco de convidados, ocorre encontros inusitados que certamente agradam ou frustram os fãs de cada personalidade, até mesmo a mídia. Um fato que conseguiu chamar tanto atenção quanto os visuais exóticos das celebridades, sem dúvida, foi o encontro de três grandes artistas pop da atualidade: Katy Perry, Lady Gaga e Madonna.

Katy Perry, Madonna e Lady Gaga

Katy Perry, Madonna e Lady Gaga

Os fãs, para afirmar o talento de sua cantora favorita, acabam criando rixas inexistentes entre elas, se envolvendo constantemente em brigas com os fãs- clubes das outras artistas. A imprensa se apropria dessas rixas, alimentando as brigas com declarações distorcidas ou fictícias, para venderem seus produtos como revistas e tabloides de fofoca. Em certo ponto as celebridades podem até ter sua vaidade ferida e responder no mesmo tom – ou até aproveitar o burburinho para se promover ainda mais-,mas chega uma hora que esse jogo cansa.

Esse encontro poderia ser visto como a oportunidade de aplacar as brigas entre fãs, mas também representaria o fim desse jogo sujo e rasteiro, que a mídia insiste em explorar, colocando grandes artistas com talentos distintos uns contra os outros. Também seria a chance de uma nova abordagem da mídia e a possibilidade que o público teria de ser livre para aproveitar o melhor de cada artista. Assim o Met Ball 2015, com todas essas futilidades do espetáculo, consegue trazer algo novo não só para a indústria da moda, mas também para a indústria da música e da imprensa.